Contos D’Azur

Blog criado para hospedar alguns contos e outros tantos que saem de uma cabeça navegante, atualmente ancorada em Nice, na Cöte D’Azur francesa.

5/7/09

Ê macho …

Sábado. Dia de inverno quente, abafado, com cheiro de maresia núvens baixas. Cinco e meia da tarde e a noite já caiu há mais de hora. Programação: comes e bebes na casa dos amigos. Mô e Mô chegam na casa de Dengo e Denga. Denga abre a porta e faz Mô e Mô entrarem. Beijinhos, abraçinhos, humm … vinho tinto, não precisava … o que vc está fazendo de gostoso? precisa de ajuda na cozinha? não, tá tudo bem encaminhado, me dá os casacos. coloca sua bolsa lá no quarto, senta, obrigado. Após o mis en place, Mô e Mô se sentam, Denga vai pra cozinha providenciar petiscos e, depois que Mô levanta e vai mexer no computador com o Dengo, pra escolherem a música, começam a conversar. Diálogo:

_ Dengo, já pegou a cerveja?

Dengo levanta e vai buscar a cerveja. Mô e Mô continuam conversando com Denga. Mô conversa sobre a massa da torta, Denga emenda conversa com Mô sobre a liquidação de inverno. Dengo, à esta altura já está de volta ao computador, mexendo em música e conversando com Mô sobre futebol. Passados alguns minutos, Denga percebe Dengo tomando uma cerveja geladinha:

_Ê Dengo, vc só serviu cerveja pra vc? E os convidados??

_ Ê Denga, eu servi pra mim, ê.

_Então serve pra todo mundo, né!!!!!! Ê coisa!!! Eu vou é deixar meus filhos todos prontos, viu, pra depois nora não vir reclamar na minha orelha. Ê Dengo, vai ser folgado assim, viu ..

_ Esquenta não Denga, já tem cerveja pra todo mundo …

_ Ai, Dengo …

E começa a noitada ….

criado por jaime.mario    20:13 — Arquivado em: Sem categoria

14/8/08

Dia de praia

Existem momentos aos quais não damos importância. Mas são instantes mágicos, que podem transformar a vida de alguém. O momento que descreverei é um deles. Pra melhor me fazer entender, preciso contar uma pequena situação.

Estevão estava desempregado há meses. Sua mulher vinha sustentando a casa e o bebê fazendo faxinas, passando roupas e cuidando de crianças. Ele, na falta do que fazer, tinha se transformado em “dona de casa”. Enquanto ela ganhava o dinheiro, ele fazia as tarefas domésticas, tais como lavar a roupa, faxinar a casa, cuidar do bebê, preparar a comida, enfim, se ocupava de todos os requisitos de uma vida digna dentro de uma casa.

Naquele sábado, Cláudia saiu pra mais uma série de faxinas. Ela estava esgotada, com dores nas pernas e com o sono atrasado. Mesmo assim, levantou-se sem reclamar e ainda com o bom humor que nem as dificuldades conseguiram lhe roubar. Estevão, então, decidiu ajudá-la. Aline, amiga de Cláudia, ficou em casa cuidando do nenê. Saíram os dois, embaixo de 36 graus de sol pra varrer, passar pano, lustrar, tirar poeira, limpar, lavar, bater tapete e tudo o mais pra deixar os apartamentos limpos.

Foram mais de 7 horas ininterruptas de faxinas. Os dois saíram da última com uma sacola cheia de roupas de cama e toalhas sujas. Precisavam levar isso ao depósito de material de limpeza dos donos dos apartamentos (eram todos apartamentos de aluguel). Não sabiam o que pesava mais: a sacola ou as pernas, que insistiam em não sair do chão. Cada passo era pesado como o do boi guia.

Na rua, pessoas iam e vinham em biquínis, sungas, com barracas, esteiras, queimadas de sol. Outros estavam sentados em mesas sortidas de garrafas de cerveja, taças de rosé e pratinhos de petiscos. Haviam também máquinas de fotos explodindo aqui e acolá com modelos sorridentes registrando suas alegrias. Mas ele, Estevão e Cláudia estavam suados, com sede, fome e com o pouco dinheiro que ganharam naquele dia. Lembraram do filho e de que deveriam comprar o leite da semana. O dinheiro apenas dava pra isso. Sobravam uns míseros trocados.

Deixaram as roupas no depósito e foram para a estação do trem. Chegando lá, sentaram-se e, minutos depois, Cláudia disse “Não é possível que a gente não possa nem beber uma água, meu bem. Eu vou usar este troco pra comprar duas garrafinhas de água pra nós. Estevão nem se manifestou, tamanho o seu cansaço.

Foi aí que aconteceu o momento. Cláudia se levantou e foi ao bar mais próximo comprar as águas. Estevão ficou ali, sozinho, com a cabeça encostada na parede, quase adormecido. Aqueles minutos que Cláudia gastou indo em busca da libertadora água, Estevão gastou pensando em tudo aquilo, naquele dia, em todos os dias, em tudo o que vivera até então, nas coisas boas e más que já vivera com Cláudia, no filho, no passado, no presente e no futuro. Foi uma reflexão rápida, mas muito profunda. De repente lhe passou pela cabeça que ela poderia não voltar. Em seguida, lhe passou pela cabeça que ele poderia fugir dali e nunca mais aparecer. Foi um segundo, mas foi muito tempo. Os pensamentos de Estevão se aceleraram, ele começou a se sentir tonto, perdido, quase desesperado. Lembrou de quando souberam da gravidez, das dificuldades do parto, de quando ficou desempregado e o nível de vida caiu, de como Cláudia nunca reclamou de nada, de como ele sofria cada dia que ela saía pra trabalhar e ele ficava em casa, lembrou de quando era criança e de quando era adolescente. Sentiu uma náusea, sua cabeça girou, tudo vinha à sua mente de uma só vez. Ele se levantou, deu umas duas voltas em torno de si mesmo e voltou a sentar.

De repente, a voz de Cláudia lhe trouxe de volta Ela dizia que comprara apenas uma garrafa de água, pois estava muito caro. Ela bebeu metade e lhe passou o resto.

Estevão bebeu um pouco da água, devolveu-lhe a garrafa e lhe cedeu espaço pra sentar ao seu lado. Dois minutos depois, o trem estava lá. Ele lhe deu a mão para embarcar e eles se sentaram. Estevão ficou ao lado da janela. Ele olhou pra fora. O céu estava lindo. O sol continuava alto, mesmo àquela hora. Ele olhou pra Cláudia e lhe perguntou se ela tinha ânimo de ir à praia. Ela disse que sim. Ele beijou sua face e voltou a olhar pro lado de fora. O céu ficara mais bonito.

 

 

Jaime Solares

criado por jaime.mario    16:24 — Arquivado em: Sem categoria

17/7/08

LUCIANA TINHA SONO

Luciana acordou. O dia estava bonito, com muito sol, mas fresco, uma brisa acariciando as cortinas de seu quarto. Mal abriu os olhos, espreguiçou-se, deu mais uma mexida no corpo e levantou-se de um pulo, toda animada, feliz, como sempre levantava.

Luciana era assim o dia todo, todos os dias. Ela exalava alegria. Todas as pessoas que a conheciam, diziam nunca terem encontrado alguém mais feliz e sorridente. Luciana era a expressão cotidiana do amor. Ela costumava dizer que faltava gente pra ela amar, que lhe sobrava amor. Ela tinha necessidade de cuidar das pessoas, o que acabava lhe transformando em um porto seguro para amigos desenganados. Além disso, não sabia negar nada a ninguém.

E foi assim que ela despertou naquele dia, exalando sua alegria e seu amor pela vida, pelas pessoas e por tudo o que a cercava. Levantou-se, lavou-se, comeu e saiu desfilando seus pouco mais de metro e meio pouco recheados – ela era franzina, o que lhe dava uma ar eternamente infantil. Luciana saiu, passou em frente à farmácia de Seu Protógenes, cumprimentou-o e ajudou-o a carregar duas caixas pesadas para dentro da loja. No caminho ainda cruzou com o Dr. Aristides, único médico da cidade.

Este é outro detalhe a ser lembrado. Luciana morava em uma pequena vila no interior do país, que tinha apenas um médico, um dentista (que também era alfaiate), dois açougues que se encontram lado a lado (antes era apenas um, mas os irmãos se desentenderam e dividiram o negócio), uma padaria que só funciona pela manhã, a farmácia de Seu Protógenes e o bar/café/restaurante do Espanhol, um tipo meio esquisito, sem um passado bem explicado, o que gerava diversas versões sobre sua vida. Uns diziam que era um ex-guerrilheiro do ETA, outros diziam que ele era um antigo comandante das FARCs colombianas, outros diziam que ele era pernambucano e que fazia tipo só pra chamar atenção pro seu negócio. Enfim, prefeitura, correio, posto de saúde, escola, igreja, tudo em número unitário. A cidade era, no geral pacata e só recebia visitantes nos sábados, quando havia a feira na praça, o que atraía visitantes das cidades vizinhas, em geral em busca das famosas lingüiças do Espanhol, que só as comercializava em sua barraca, nunca no bar/café/restaurante.

Bom, em mais um dia bonito, na pequena cidade, Luciana saiu, ajudou seu Protógenes, cruzou com o Dr. Aristides, trocando com ele um dedinho de prosa, passou em frente ao bar/café/restaurante do Espanhol, cumprimentando algumas pessoas que já estavam ali tomando seu café e ainda conversou um pouco com o padre Pedro sobre a quermesse antes de chegar à agência de correio. Ela desejava enviar uma carta ao Jesse, um americano que passara pela cidade em missão religiosa e com quem ela se correspondia há mais de ano. Entrando na agência, ela cruzou com a Dona Mercedes e esta lhe pediu uma ajuda pra fazer os doces da festa de aniversário de se netinho. Luciana, claro, aceitou ajudar e tratou com ela para aquela tarde.

Depois de selar, pagar e colocar a carta na caixa da agência dos correios, Luciana foi pra escola, onde daria a aula de música para os alunos da segunda série. Ela tocava violino e ministrava o curso todos os dias, cada dia pra uma classe.

O dia de Luciana passou assim, como todos os dias – sorrisos, aula, ajuda pra uns e outros, missa das seis e retorno pra casa. À noite, ela preparou seu jantar: um pouco de ragu com banana frita, farinha e salada. Fez também uma limonada e comeu de sobremesa uma fatia grossa de abacaxi.

Luciana ainda escutou um pouco o rádio e depois foi fazer suas preces antes de se deitar.

Luciana deitou-se e dormiu. Dormiu e nunca mais acordou. Alguns dias depois encontraram ao lado de sua cama o vidro de remédios que ela roubara na farmácia de Seu Protógenes. Eram calmantes fortíssimos. O vidro estava vazio.

 

 

Jaime Solares

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25/6/08

VOLTA PRA CASA

O sol criava miragens através dos vidros do trem. Luiz não sabia mais distinguir o que era real. As imagens que ele via através do trem, por vezes, não lhe pareciam fazer parte da paisagem. Mais se assemelhavam a momentos de sua vida – alguns deles ainda nem vividos. Foi assim, meio perdido, sonolento, com o rosto encostado na janela, atordoado pelo sol, sem vontade de rir nem de chorar, que ele passou cerca de quarenta minutos dentro de um vagão de segunda classe, indo pra casa, depois de mais um dia frustrante atrás de trabalho. Já se iam vários meses sem emprego, sem rumo e, em realidade, sem razão de ser.

O alto-falante anunciou o nome da estação. Luiz levantou-se e andou calmamente até a porta. Tomou alguns esbarrões dos passageiros que montavam, mas saiu ileso, sem nem mesmo se importar. Ele olhou em volta e viu a folia de pessoas indo e vindo, apressadas, escutou apitos, últimas chamadas, despedidas, reencontros, escutou tanto que de repente o mundo emudeceu. Ele sentiu-se aliviado. Só então deu o primeiro passo em direção à escada. Desceu uma centena de degraus e cruzou o corredor azulejado e repleto de anúncios até chegar à escada rolante para novamente subir até o hall principal da ferroviária. Deixou pessoas apressadas passarem à sua frente e então embarcou. A escada era grande e o tempo que ela gastou o levando até o hall lhe pareceu uma eternidade. Finalmente chegou e caminhou por entre a multidão de turistas que invadiam a cidade naquela época do ano. Ainda parou e olhou, sem nenhum motivo pra isso, o quadro de partidas. Flertou com as horas e resolveu continuar seu caminho. Ele, diferente da maioria das pessoas ali, não tinha pressa, não tinha pra onde ir, a não ser pra casa, terminar o dia ensolarado dentro da minúscula cozinha preparando seu jantar solitário.

Enfim, do lado de fora, viu o ônibus se aproximar. Numa fração de segundos, olhou pra dentro da condução, olhou para o ponto, o relógio da estação e, considerando o número de pessoas que já estavam a bordo, a quantidade que montaria, as horas e sua necessidade de correr alguns metros até a parada, decidiu esperar o próximo. Ficou, então só, sentado, aguardando o próximo carro.

Sozinho, mais uma vez encostado em um vidro (desta vez eram suas costas), ele, por um momento, invejou todas aquelas pessoas que iam em alguma direção. Os carros que passavam, buzinavam, gesticulavam, tinham que chegar rápido, tinham que estar não sabia onde em pouco tempo. E ele? Ele não tinha que estar em lugar nenhum. Sentiu-se triste.

De repente um carro entra na rua e para quase na sua frente, mas à uma distância razoável. O semáforo estava vermelho. Ele percebeu que havia um casal, dentro do carro, na faixa dos cinqüenta anos. De repente, a mulher começou a gritar em uma língua que ele não sabia se era árabe ou hebreu. Ela parecia bastante desesperada e arranhava seu próprio rosto enquanto chorava e gritava a língua confusa e gesticulando violentamente, espancando o painel e a janela. O homem, ao volante, nem se movia, permanecia inerte e alheio, como se aquilo não estivesse acontecendo. O comportamento do homem, um senhor de cabelos curtos e ventre grande, era de tal indiferença que Luiz chegou a pensar que aquilo realmente não estava acontecendo e que só ele estava vendo aquilo. Ele reparou que nos carros em volta, também, ninguém se importava. Ele era o único que sentia uma certa agonia por aquela mulher. Talvez fosse o sol. Talvez fosse ele próprio. Talvez aquela mulher ali, fosse sua alma. Ou talvez fosse só uma briga conjugal.

O semáforo ficou vermelho por horas, mas ao esverdear, os carros partiram em alta velocidade e o veículo onde o desespero viajava dobrou a primeira à direita. O ônibus chegou logo em seguida, na direção contrária. O ponto continuava exclusivo de Luiz e ele subiu em um carro quase vazio. Foi até o fundo, onde havia um banco solteiro, pois não se sentia bem sentando ao lado de outra pessoa. Acomodou-se sem encostar o rosto na janela. Dali, continuou a ver os carros e as pessoas indo e vindo, apressados pra chegar. O sol continuava escaldando suas vistas. Ele pensou em abrir o livro que estava em sua mochila, mas, desta vez, o trajeto foi tão curto que nem deu tempo.

Luiz chegou e subiu os quatro lances de escada, porque o elevador estava ocupado com uma mudança. No segundo lance lembrou que não tinha olhado a caixa de correio. Decidiu deixar pra amanhã, afinal, provavelmente não haveria nada além de publicidade. Entrou em casa, tirou roupa e abriu o livro que pensou em ler dentro do ônibus – Incidente em Antares, de Érico Veríssimo. Recomeçou na página oitenta e quatro, onde tinha parado: o presidente Getúlio Vargas acabara de suicidar-se. Ele fechou o livro e foi ao banheiro. Comera algo que lhe fizera mal.

Jaime Solares

criado por jaime.mario    16:48 — Arquivado em: Sem categoria

26/5/08

Um telegrama

Ricardo abriu com dificuldade o portão do prédio. O síndico não havia consertado a fechadura e ele começou a sentir uma ponta de raiva, mas não estava com ânimo para isso e, muito menos, para reclamar. Encostou a porta, sem fecha-la completamente, para que o próximo morador não tivesse o mesmo problema - aquele era um horário onde muitas pessoas chegavam do trabalho.

Começou a subir a escada, degrau por degrau, precisando fazer um grande esforço. Após o primeiro lance de escadas amaldiçoou-se por ter decidido morar no terceiro andar.

Aquele, definitivamente, não era um bom dia. Desde que o rádio-relógio expulsara-o da cama ao som de algum pagode de merda, seu humor atormentava-o. Veja lá se seis e meia da manhã é hora de tocar pagode nesta porra de rádio!! Assim começara seu dia. A ducha foi um banho de desânimo. Ele tinha comprado xampu e sabão na noite anterior, antes de chegar em casa, mas, claro, tinha esquecido tudo na mesa da sala e agora estava ali, embaixo daquele dilúvio sem sentido, de onde saíra molhando todo o chão em busca dos cosméticos que usaria para lavar a alma de toda essa porcaria de vida e escorregara e batera a mão no vaso de gerânios que sua mãe levara para enfeitar sua casa e que agora transformara o chão um campo minado obrigando-o a tentar inutilmente desviar dos cacos.

No topo do terceiro lance de escadas, ao entrar em casa, Ricardo viu os restos de caco, terra e de sangue pelo chão. Suspirou, despiu-se do blusão cinza que cobria seu uniforme de condutor e pegou um pano para limpar o chão. Esfregava o sangue que insistia em não sair dali. Quanto mais esfregava, mais o sangue se espalhava e os cacos acabavam lhe cortando mais as mãos, sem que ele notasse, o que gerava mais e mais sangue espalhado. Ricardo pensava no garoto que se atirara na frente de um trem há poucas horas. O evento fechou várias linhas e ele ficou mais de duas horas parado entre as estações de Francisco Morato e Palmeiras-Barra Funda. O garoto tinha apenas 16 anos, contou-lhe o seu chefe. De repente, um caco mais pontudo lhe causou dor e só então ele percebera que suas mãos estavam repletas de pequenos cortes. Ricardo suspirou mais uma vez, levantou-se, lavou o pano, as mãos e desta vez pegou um balde e um esfregão. Encheu o balde de água, colocou duas medidas da tampa da garrafa de água sanitária, misturou e, finalmente, limpou o chão com as mãos ainda vazando.

Ricardo sentou-se no vaso sanitário esperando a coragem para entrar outra vez embaixo do chuveiro e ela chegou. Temperou a água antes de se aventurar embaixo dela – primeiro abriu a torneira quente e em seguida a fria, transformando o banheiro em sauna. Antes de se entregar definitivamente ao banho, urinou sentado, sem dar a descarga para não atrapalhar o fluxo da água na ducha. Só então entrou embaixo do chuveiro, molhou os poucos cabelos que lhe restavam e expôs seu rosto ao jato quente, deixando a água escorrer por sua face antes de atingir seu corpo. Ficou assim por minutos, horas, talvez dias. Já tinha os dedos enrugados quando resolveu lavar os cabelos e os baixos. Em seguida, enrolou-se na toalha sem enxugar o corpo e foi ao seu quarto estirar-se na cama sem sentir nenhum cansaço. Toda a fatiga tinha descido pelo ralo. Olhou pela janela e viu o céu iluminado por uma lua imensa que parecia estar mais próxima do que o avião que piscava vermelho e verde em direção ao Rio de Janeiro. Ele pensou que gostaria de ir para praia no fim de semana.

Sem levantar a cabeça, Ricardo moveu o braço até o criado-mudo, pegou o controle da televisão e, sem mesmo olha-lo, ligou a televisão no jornal local esperando noticias do Corinthians. Será que trocaram o treinador? Ele estava animado com a possibilidade da chegada daquele técnico argentino. Sem esperar a notícia, decidiu sair e levantou-se para vestir aquela camisa que Marisa tinha lhe presenteado no aniversário. Iria surpreende-la na saída do seu trabalho no Shopping Osasco. O banho reanimara-o e seu dia, às oito da noite, enfim, parecia ter sentido. Vestiu-se, perfumou-se, penteou-se e até lustrou o sapato. Olhou-se no espelho e gostou. Passou pela cozinha pra beber um copo de água gelada antes de partir. Enquanto bebia a água, verificou seu correio, separou propagandas, contas e notou um telegrama urgente no meio de tudo. Colocou-o no bolso e saiu de casa apressado pra não perder o ônibus das oito e meia. Desceu as escadas e nem se importou com a fechadura defeituosa do portão. Andou a passos largos e chegou na parada do ônibus logo antes deste sair. Enfim, sentou-se aliviado, abriu a janela ao seu lado e tirou o telegrama do bolso da camisa nova. Olhou-o de um lado, de outro, não entendeu bem e abriu-o meticulosamente, pra não estragar a mensagem. O remetente era seu irmão e a mensagem era o anúncio da morte de sua mãe. Ricardo fechou o telegrama, dobrou-o em quatro, recolocou-o no bolso da camisa e deu o sinal.

 

Jaime Solares

criado por jaime.mario    22:34 — Arquivado em: Sem categoria

23/4/08

INSÔNIA

A chuva metralhava o teto do chambre de bonne que Roberto alugava em Paris. Aquele tiroteio, como sempre, recordava-o o último dia em que seus olhos conversaram com seu cérebro e ele enxergou pela última vez, aos dezesseis anos. Foi numa noite como aquela, que ele se deitou e fechou os olhos sãos para, na manhã seguinte, acordar ainda nas trevas, onde permanece até hoje, sem nunca ter sabido a razão de sua sentença. Nem os médicos nunca souberam.

Agora, vinte anos depois, Roberto não conseguia dormir com aquela sinfonia agonizante sobre suas idéias. Ele insistiu durante algumas dezenas de minutos, mas o desconforto venceu o cansaço e Roberto decidiu se levantar pra fazer ele não sabe o quê. Ele seguiu o caminho habitual entre a cama e a única janela do pequeno cômodo, situado no sótão de uma residência de 3 andares. O ambiente era simples e frio: as paredes com a pintura descascada, tendo como único adorno um calendário em Braille decorado, ironicamente, com uma foto do Mont Blanc. O piso era de um carpete ralo e desbotado e os únicos móveis eram um sofá de duas pessoas, próximo à janela; ao centro, uma cadeira velha e uma mesa e, no outro canto, a cama de onde Roberto acabara de se levantar. Ao lado da cama havia uma pequena geladeira que servia, ao mesmo tempo, de criado-mudo. Em cima, alguns livros de Garcia Marquez e Dumas - autores preferidos de Roberto, além de um telefone velho. No parapeito da janela havia um cinzeiro que, de tempos em tempos, Roberto esvaziava ali mesmo, sobre os transeuntes. Toda vez que fazia isso, ele desfrutava de uma estranha sensação de prazer, chegando mesmo a sorrir quando ouvia alguém reclamar da chuva de pontas de Gitannes. No último canto havia uma pia onde uma torneira chorava incessantemente. Naquela noite, entretanto, a chuva parecia intimida-la.

Chegando à janela, Roberto pegou o cinzeiro, fez menção de esvazia-lo e desistiu: pensou que ninguém estaria na rua e, se estivesse, estaria protegido por um guarda-chuvas. Colocou o cinzeiro de volta no parapeito e acendeu um cigarro. Ficou sentado no sofá pensando em Alejandra, uma mestranda mexicana que conhecera em sua palestra desta tarde. Alejandra era a primeira pessoa, em anos, que não pisou em ovos pra conversar com ele. A espontaneidade com que se dirigiu a ele o surpreendeu e o atraiu. Ele pediu seu telefone e ela lhe respondeu que não adiantava ele anotar, pois não poderia lê-lo, então que ele desse o dele. Ele riu, lhe deu seu número e foi surpreendido por um beijo agradecido em sua face direita, onde até agora se sentia o perfume de melissa herdado da descontraída latina. Marcelo, desde então, era capaz de reconhecer os passos de Alejandra em qualquer ambiente. Apoiado na janela, com o Gitannes inflamado, Roberto buscava em sua memória a surpresa daquele beijo e a vibração daqueles passos, mas a tempestade insistia em desafiar sua concentração. Marcelo acendeu o segundo companheiro no cadáver do primeiro e, desta vez, sentou-se no sofá acomodando os cotovelos sobre as pernas, inclinado pra frente, como se não quisesse ficar sentado. Chupou o cigarro mais um pouco e depois atirou-o pela janela ainda aceso, sem nenhum prazer desta vez.

Como por encanto, Alejandra se foi de sua mente. Roberto lembrou-se das Putas Tristes de Garcia Márquez, que começara a ler no metrô, a caminho de casa. Resolveu termina-lo esta noite, então buscou-o na escuridão, sentou-se na cadeira, apoiou o livro sobre a mesa e começou a tateá-lo, iniciando, assim, sua leitura. Alguns minutos passados, seu olfato foi seduzido pelo aroma de amêndoas torradas vindo do cômodo vizinho, onde morava Ina – uma búlgara, estudante de psicologia, simpática e atenciosa. Roberto definitivamente abandonou o livro e aguçou sua audição para os sons vindos do outro lado da parede. Escutou rolhas sendo cuspidas, taças de cristal se beijando e risos ecoando. Provavelmente Pierre, o namorado de Ina, um jovem piloto da Air-France, estava na cidade, trazendo um presente e uma presença para Ina. Mais tarde, se a chuva permitir, com certeza ele escutará Ina fazendo amor em búlgaro e pensará, como sempre, em Krista, personagem de Chico em Budapeste. Sentiu uma ponta de inveja dos dois amantes e entristeceu-se com isso. Tentou pensar novamente em Alejandra, mas não conseguiu. Voltou, então, à leitura.

 

Jaime Solares

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9/2/08

Au revoir

Ela foi embora! Ela nunca foi embora antes, sempre fui eu quem virou as costas e pegou a estrada. Ontem eu, pela primeira vez na minha vida, vi minha mãe indo e eu ficando. Eu fui embora aos vinte e três anos (e lá se vai tempo), tomando o rumo que a vida ofereceu. Voltei depois de mais de dez anos e, pra não perder a prática, fui embora de novo e de novo e de novo. Fui embora e voltei várias vezes. Não ontem. Ontem eu fiquei. Ela cruzou o detector de metais, levantou os braços pra ser revistada, falou algo em português com o segurança francês (mas ele entendeu, pois lhe indicou algo com a mão), em seguida virou-se pra mim, acenou e se foi. E eu fiquei ali, no saguão do Aeroporto Internacional Côte D´Azur, em pé, desesperado de vontade de correr lá dentro e dar um último abraço, perdido, sem lugar, sem nada nas mãos, nem sob os pés. De algum jeito, eu me virei e dei alguns passos até a escada rolante, onde dei de cara com alguém carregado de malas, pois quis descer pela escada que subia. Ouvi alguns xingamentos em alguma língua escandinava, pois, logicamente, a pessoa que subia a escada se embolou toda com as malas, por minha causa. Com algum esforço cheguei ao ponto de ônibus e tentei falar com a Michelle: caixa postal (ela estava trabalhando). Eu precisava ouvir alguma voz reconfortante. Liguei de novo: caixa postal. Liguei, então pra Amana: caixa postal. Liguei de novo pra Michelle: caixa postal. O ônibus chegou (um pequeno ônibus que vai de um terminal ao outro). As pessoas subiam cheias e malas e abraços e eu subi sem nada nas mãos ou sob os pés. Liguei de novo pra Amana: caixa postal. Desisti de ligar pra alguém. Encostei a cabeça no vidro e fiquei olhando pra fora, buscando não sei o quê. Cheguei ao terminal 1, desci e fui em direção ao ponto do ônibus que vai pra casa. Ele estava saindo, eu corri pra pedir ao motorista pra parar e me esperar (coisa rara aqui na França). Ele parou e isso me confortou. Foi essa atitude que me consolou naquele momento. Eu me sentei na cadeira atrás do motorista, de frente pra um vidro cheio de papéis, pois não queria que ninguém visse minha cara de cachorro assutado. O ônibus encheu, as pessoas se acotovelavam pra passar e eu cruzei todo o corredor pra descer na porta de casa sem nada sentir. Desci do ônibus e liguei de novo pra Michelle. Ela atendeu e eu disse “pode falar?”. Ela respondeu “não”. Eu disse então “quando sair do trabalho, me liga” Ela disse que sim, nos despedimos e eu subi pra casa. Foi bom. A voz dela me colocou algo sob os pés de novo. Subi e liguei a televisão. Não lembro o que passava.

 

Jaime Solares

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26/11/07

O SEGREDO DE CLÓVIS

Como em cada manhã, Clóvis demorou-se ainda cinco minutos na cama depois que o despertador o avisara da hora. Em seguida, como em cada manhã, ele se levantou, esfregou os olhos remelentos, lavou-se, lambuzou o cabelo de gel, vestiu seu terno e foi trabalhar.

Era assistente do diretor comercial de uma empresa de exportação de café, emprego que conseguira com a indicação do tio, logo que chegara à capital como economista recém-formado em uma faculdade que ele nunca se atreveu revelar. Em seu curriculum constava um diploma da UFMG, duas pós-graduações na Fundação Getúlio Vargas e um estágio em uma empresa americana, em Boston. Como nunca ninguém lhe requereu comprovação de nada disso, esta acabou sendo a sua verdade. Clóvis vivia assim, em um mundo criado por ele. Considerava que deveria sempre estar entre os ricos para um dia se tornar um deles, transformando, assim, sua vida em uma ficção. Estava sempre bem vestido, perfumado e freqüentava os melhores locais, gastando até o que não podia. Por diversas vezes fora obrigado a negociar empréstimos em financeiras, bancos, empresas de cartões de créditos, mas, mesmo assim, era visto como um executivo de sucesso, bem quisto nas altas rodas sociais, principalmente depois que noivara com Raquel, filha do presidente da empresa, fato que, aliás, fizera crescer suas dívidas, pois passara a gastar mais. Claro que Clóvis também contava com seu carisma, sua boa cultura, sua fala fluente e envolvente e a sorte de ter nascido belo. Ele era um homem alto, esbelto, com um sorriso singular, mãos finas, pele clara, cabelos negros e olhos azuis, herdados do pai, um francês que se divertira com sua mãe durante um carnaval e de quem ele nunca tivera notícia. Mas tirava proveito de sua descendência européia. Vivia se gabando de ter o nome do primeiro rei da França, aliás, o primeiro rei germânico (originalmente Clóvis era chefe do povo germânico chamado Franc, de onde vem o nome da França) a se converter ao cristianismo. O nosso Clóvis contava toda a história política francesa pra quem quisesse ouvir, sempre ressaltando sua origem.

Voltando àquela manhã que, como em todas as outras, Clóvis saíra de casa pra o trabalho, como era sexta-feira, ele, antes de entrar no arranha-céu onde se instalava o escritório da exportadora, passara, como em cada sexta-feira, pela casa lotérica e jogara seus dois reais semanais. 06, 12, 23, 24, 45 e 46. Este era seu jogo desde os 16 anos. Passaram-se mais de 10 anos, mas ele insistira em sua fé nestes algarismos.

No dia seguinte, como em cada sábado, Clóvis despertara em silêncio, esfregara seus olhos remelentos, lavara-se e saíra de casa, com os cabelos soltos, pra comprar o jornal e o pão. Voltara, preparara seu desjejum e começara a folhear o diário para ver os números sorteados da loteria: 06, 12, 23, 24, 45 e 46. Ele nem precisava conferir. Já sabia de cabeça seu jogo!!! Seu coração disparara e ele continuara a ler. Um ganhador. O prêmio: a bagatela de algumas dezenas de milhões. Era ele! Afinal, ele era milionário! Acabariam suas dívidas!!! Ele estava rico!!!!Ele, Clóvis, agora tinha nome e patrimônio de rei! Sua nobreza não mais seria apenas aparente, ele seria realmente rico, mais rico que muitas das pessoas com quem ele convivia! Ele nunca se sentira tão alegre! Ele griotu, chorou, pulou, correu, não estava se cabendo em si! Parecia explodir.

Na segunda-feira seguinte, como em cada manhã, ele demorou-se ainda cinco minutos na cama depois que o despertador o avisara da hora. Em seguida, como em cada manhã, ele se levantou, esfregou os olhos remelentos, lavou-se, lambuzou o cabelo de gel, vestiu seu terno e foi trabalhar.

 

Jaime Solares

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11/11/07

A fia do doutor

Toinho chegou sorridente em casa, com a boca escancarada mostrando os poucos dentes que ainda lhe restavam. Tava feliz da vida. Foi logo falando alto pra Nho Barnabé.

__ Ela falô comigo hoje!
__ Ela quem, misifi?
__ A filha do doutor.
__ Quem?
__ Aquela branquela mais bunita que a luz do dia!
__ E daí? Gente branca também fala, uai.
__ Mas comigo? Um preto magrelo e pobre. Se eu tivesse as vara dos negro de verdade, ainda ia. Pudia sê fama. Mas cum essa birosquinha que eu tenho, nem isso num há de sê. Ela num falô por interesse. Ela falô porque gosta d´eu.
__ E daí? Um tan´de gente gosta d´ocê.
__ Mas é diferente. Ela é diferente.
__ Deixa de sê besta, home!
__ Cê num intende.
__ Tão ixprica.
__ A primera veiz qu´eu vi ela, ela tava brincando com a irmãzinha. Elas jogava uma bola grande. Mas eu, logo de cara, vi qu´ela era muié, num era minina iguar sua irmãzinha. Ela corria mostrando as perna. Ela tava gostando de mostrar as perna pros pião. Todo mundo ficou doido, né. A gente ta acostumado com essas cabrocha queimada de sol e de terra. Ela é diferente. Ela tem a pele que parece barriga de leitãozinho recém-nascido. E os zói!! Parece dois pedaço de céu. Os cabelo são igual lavoura de trigo. Parece até o cabelo do anjo Gabriel. Ela deve sê enviada de Deus mesmo. Aquilo é beleza demais, tudo perfeitin demais da conta. Eu fiquei um tantão de tempo só oiando pr´ela. Ela num me viu desta veiz. Tem otras veiz que ela me viu, mas num sabe fala nossa língua, fala umas palavra tudo imbolada. Deve de querer conversar cumigo, mas num dá conta, coitada. Hoje ela tentou, mas eu sô muito do burro, intão num tendi nada e continuei minha rota, nem parei pra agradecê qui ela falô comigo. Ela é minina boa, muito boa, eu inté casava, si ela queria.
__ Ih!! Tá gamadão, misifi?
__ Dessa veiz eu acho que o peixe me pego! Eu num largo di pensá nela. Eu vô pra roça, vorto da roça, como, drumo, tudo pesando na danada. Até sonhá, eu sonho cum ela. Otro dia sonhei qui a gente tava dançando na quermece de São Francisco. A dançava igual dois dançadr mesmo. ELa tava usando um vistido branco,de renda, bunito igual ela. E ela ria pra mim o tempo todo, c´aqueles dente mais branco qui lua cheia. Ela tava filiz de tá ali cumigo. Eu acho até qui vô comprá um vistido pr´ela cum dinheiro da coieta, qui esse ano tá boa. Eu peço coroner e ele me adianta um pouco.
__ Dêxa de sê besta, fi de Deus!!!!
__ Besta nada! Ela que puxô conversa. Eu qui num tendi nada. Mas se eu dé o vistido, ela vai intendê qu´eu gostei d´ela tê falado cumigo.
__ Cê ta ficando é doido, misifi.
__ Doido nada, ela ta gostando d´eu.
__ Doido!
__ Num amola. Ela gosta e pronto.
__ E o que é que te falou pr´ocê fica desse jeito?
__ Num sei, eu num falo a língua dela, mas eu anotei, pru mó de depois intendê. Aqui ó, ta aqui nu meu borso.
__ I ocê lá sabe iscreve, misifi?
__ Craro, nho Barnabé, nho num se alembra qui aqui tinha a iscola da Sinhá Helena, antes deles vendê a fazenda prêces gringo!
__ Dêxa di istória. O quê que ela falou, afinal?
__ Aqui ó, peguei. Ela disse isso aqui ó: fac iu.

 

Jaime Solares

criado por jaime.mario    1:13 — Arquivado em: Sem categoria

31/10/07

ANDANDO NAS NUVENS

Jorge saía de casa todos os dias por volta das sete, andava um quarteirão e atravessava uma praça até chegar à parada do ônibus. De um lado da praça, havia um colégio de meninas e, neste horário, chegavam as alunas e algumas professoras, criando uma pequena balbúrdia na praça, mas ele nunca prestou atenção, até que, um dia, ele caminhava pela praça, distraído, como sempre, e, de repente, pum, ele trombou em Mariana. Sua atitude foi natural – desculpou-se, ajudou-a a recolher seus livros, desculpou-se mais uma vez e continuou seu caminho. Segundos depois de retomar sua direção, Jorge cometeu o grande erro de sua vida: ele olhou pra trás. Ela caminhava. Mas ela caminhava diferente. Ele nunca tinha visto ninguém caminhar daquele jeito. Ela parecia não tocar o chão. Era como se ela levitasse. O movimento de suas pernas não era recortado como são os movimentos de todos os mortais, era um movimento contínuo, como se feito sobre rodas. O quadril de Mariana era independente. Ele balançava sem exageros e não era ela que comandava o balanço. Parecia que  o quadril levava Mariana consigo e não o contrário. Ela era uma mulher baixa, com não mais do que um metro e cinqüenta e cinco de altura. Tinha os cabelos lisos, grandes e, assim como os olhos, negros como a noite. A pele era alva. Ela aparentava uns vinte e tantos anos e tinha mãos e pés pequenos. Seu corpo era correto, sem nada demais ou de menos, mas o seu andar fazia dele um superlativo de sensualidade. Voltando ao Jorge, ele continuou a olhá-la até que ela desaparecesse dentro da escola. Ficou estático, mesmo depois, até que alguma buzina o despertou do transe. Perdeu o ônibus e chegou atrasado no trabalho, mas, nem mesmo a bronca do patrão, conseguiu tirar da sua mente aquele andar.

Jorge caíra apaixonado pelo andar de Mariana naquele exato instante em que virou o pescoço. Ele não se importava se ela era bonita, feia, inteligente, simpática, ele não se importaria nem mesmo que ela fosse de Marte. A paixão dele era pelos seus movimentos. Mas, claro, ele tentou descobrir mais sobre ela. Foi aí que reparou em sua aparência, soube seu nome, sua profissão (ela lecionava música no tal colégio), soube que ela era órfã de pai e mãe, que fora criada por uma tia e que era solteira. Soube que viera do interior pra assumir a referida cátedra, que vivia no quarteirão de baixo e que já era muito querida nas redondezas, mesmo tendo se instalado há apenas quinze dias. Até Elizabeth, sua esposa, conhecia Mariana, com quem encontrara na barraca de peixe do seu Feliciano, na feira de domingo, e a descrevera como carismática, doce e simpática.

Jorge passou a sair mais cedo de casa. Dizia à esposa que queria chegar antes do Ronaldo no trabalho, pra impressionar o chefe, mas ficava sentado em um banco, esperando Mariana aparecer na esquina e seguir pelo meio da praça até alcançar a porta do liceu. O problema é que ele ficava hipnotizado. E isso acontecia sempre que ela passava, não importa onde ou com quem ele estivesse. Se ele estivesse atravessando uma rua e visse Mariana passar, ele ficava ali parado até ser acordado pelo urro de um caminhão ou pelo xingamento de algum motorista. O andar de Mariana exercia sobre Jorge um poder mais forte que a própria razão.

Passaram-se meses e a obsessão continuava. Jorge agora sonhava, imaginava, visualizava, até fazia amor pensando no caminhar de Mariana. Ele gostava de pensar que ela desfilava pra ele. Mesmo no fim de semana, ele descobrira os horários em que Mariana costumava ir à feira pra vê-la caminhar de sacola na mão. Elizabeth estava até contente, pois o marido estava se encarregando desta tarefa. E, além disso, estava acompanhando-a a missa de domingo, onde se esforçava para sempre ficar atrás de Mariana na fila da comunhão.

Mas os sucessivos atrasos de Jorge esgotaram a paciência do patrão e ele perdeu o emprego. Não contou à esposa, pois precisava da desculpa do trabalho para sair de casa todos os dias cedo. E, como não tinha mais ocupações, Jorge passou esperar Mariana em todos os trajetos que ela fazia. Ele não conseguia segui-la, pois, ao vê-la, ficava imóvel, meio abobado. Mas ele sabia por onde ela passava. Então escolhia as ruas mais longas e se escondia atrás de uma árvore ou sentava em um café, enfim, se posicionava para vê-la passar.

Sem emprego, Jorge não conseguiu mais cumprir suas obrigações. Elizabeth descobriu que Jorge estava desempregado e, em meio a discussões e ausência de explicações plausíveis, Jorge viu sua mulher ir com a filha pra casa da irmã, enquanto ele já não tinha nem mais um teto. Ele passou a dormir na rua, em algum lugar de onde ele pudesse ver Mariana passar.

E foi vivendo assim, como um mendigo, que Jorge, numa tarde de sábado, quando a rua está cheia de carros e de pessoas, viu Mariana sair de casa apressada. Como de costume, ficou olhando de pé, congelado, abestalhado. Desta vez, o molejo de Mariana foi interrompido por um carro, mais apressado do que ela, que quase a jogou pelos ares, mas antes que seu corpo caisse imóvel, como uma marionete adormecida, Mariana vôou. Jorge voltou a si e reagiu rápido: correu, no exato momento em que um outro carro passava, tentando desviar do acidente. Pulou com os dois pés no capô deste carro e vôou atrás de sua amada, pois queria continuar apreciando aquele andar, nem que fosse nas núvens.

 

Jaime Solares

criado por jaime.mario    14:46 — Arquivado em: Sem categoria
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