Contos D’Azur

Blog criado para hospedar alguns contos e outros tantos que saem de uma cabeça navegante, atualmente ancorada em Nice, na Cöte D’Azur francesa.

15/10/07

O PAI DO JOGADOR

A enfermeira sai da sala de parto e anuncia o sexo do bebê ao pai ansioso. “Eu sabia!” disse ele de forma entusiástica, já retirando, da sua bolsa, o uniforme do Atlético.

Passada meia hora, Raimundo entra na enfermaria para ver às quantas ia Neuza.  Poucos  instantes depois, entra a enfermeira trazendo Reinaldo, já devidamente vestido de atleticano, como pedido pelo pai orgulhoso. Neuza torce o nariz. Tinha recomendado várias vezes ao marido para não levar o uniforme para o hospital. Era seu primeiro filho e ela não gostaria de vê-lo sair fantasiado da maternidade. O argumento paterno era surreal: “Quando ele chegar ao time profissional, nós venderemos estas fotos pra imprensa.”

Depois de alguns dias, já em casa, Raimundo chega do trabalho com a primeira bola do futuro craque. Saca mais fotos para satisfazer a futura fome da imprensa esportiva, afinal, todo registro do sucessor de Pelé vale a pena.

O quarto de Reizinho é repleto de flâmulas, de fotos antigas de esquadrões alvi-negros de todos os tempos. Toda noite, Raimundo sentava-se ao lado do berço do filho e conversava com ele: “Olhe aquela foto ali. Aquele é o Reinaldo, seu xará, meu filho. Foi dele que você herdou o nome e, com certeza, o talento. Você ainda não sabe, mas eu também comecei minha carreira no juvenil do Galo. Jogava com o Rei. Se não fosse o meu problema no joelho, eu teria chegado à seleção. Mas você não vai ter problema nenhum. Você vai conseguir, meu filho. Eu tenho certeza!” O herdeiro dormia e Raimundo se levantava pra sonhar com os futuros dribles do filho.

Reinaldo começou a andar bem novo. Não tinha nem completado o primeiro ano de vida. Pra Raimundo, essa  era mis uma prova de que ele seria um craque daqueles que são bem mais rápidos que os zagueiros adversários. Chegaria aos profissionais antes dos dezessete anos e aos dezoito já estaria disputando sua primeira copa do mundo. Raimundo estava orgulhoso, adorava contar como o filho já conseguia caminhar conduzindo a bola: “É um controle perfeito, uma intimidade impressionante com a bola! O garoto é pré-destinado.”

Aos sete anos, Reinaldo começou a treinar na escolinha do Sete de Setembro. Todos que o viam jogar, diziam que seria o próximo Maradona. Ele tinha uma perna esquerda incomparável. A bola grudava em seu pé de forma que ninguém conseguia tira-la. Rapidamente, estava jogando com os garotos mais velhos. Ele era o menor, mas todos queriam jogar ao seu lado. Ele era o melhor da região.
Rapidamente seu talento foi reconhecido por um dos olheiros do Atlético e, aos doze anos, Reinaldo viu o pai chorar ao assistir seu primeiro treino na equipe infantil do clube. Raimundo estava que era só alegria. A mãe sempre preocupada com os estudos, mas Raimundo dizia que eles não precisavam se ocupar com isso, pois Reinaldo faria tanto sucesso, que seria mais rico que qualquer doutor e que os dias difíceis estavam com os dias contados.

Rei, como já era chamado, assinou seu primeiro contato aos dezesseis anos, com a tutela paterna. Era um valor razoável, o suficiente até os dezoito anos. Depois tudo seria renegociado.

Rei foi o artilheiro do campeonato nos dois anos de contrato. Ele era o ídolo da torcida e vários clubes estavam interessados em seus serviços, mesmo clubes europeus. Tudo parecia um sonho para Raimundo.

Ao final do segundo ano de contrato, Raimundo sofreu um sério problema pulmonar, fruto de todos os anos que fumou, diariamente, mais de quarenta cigarros . Mesmo no hospital, ele acompanhava os jogos do filho. Todos os pacientes o saudavam e felicitavam pela sorte de ter um craque daqueles em casa. Ele ficou cerca de dois meses hospitalizado, mas, ao final, não resistiu e faleceu.

No dia do jogo decisivo do campeonato, o Atlético prestou uma homenagem póstuma a Raimundo. Reinaldo fez o gol do título e, durante a comemoração, mostrou uma camiseta com a foto do pai. Esta cena encapou todos os jornais e revistas no dia seguinte. Foi um jogo que emocionou até os adversários. Neuza levantou o troféu junto com Reinaldo e todos os jogadores do time o levantaram em seus ombros, agradecendo a grande performance do jovem talento.

Uma semana depois, Reinaldo se encontrou com o presidente do clube para decidir seu futuro. Toda a imprensa esportiva local estava de plantão na porta do clube. O garoto entrou acompanhado da mãe e saiu menos de vinte minutos depois. Não disse nada à imprensa. A excitação era geral. Todos queriam saber o que se passara lá dentro.

O presidente do clube saiu de sua sala com a expressão de quem acabara de ver um fantasma. Sem esperar as perguntas dos jornalistas, ele anunciou:

“Reinaldo não faz mais parte do nosso plantel. E nem de outro clube. Ele encerrou sua carreira futebolística e vai prestar vestibular para direito. Ele quer ser advogado.”

 

Jaime Solares

criado por jaime.mario    14:25 — Arquivado em: Sem categoria

2 Comentários »

  1. Comentário por andre pp — 16 16UTC outubro 16UTC 2007 @ 1:22

    Muito bom! Ótima a idéia dos contos. Desejo muito vento para estas velas. Abraço.

  2. Comentário por Bel — 19 19UTC outubro 19UTC 2007 @ 10:56

    Jaime, Jaime, Jaime
    Você escreve bem! Gostei muito do conto!
    Vou ler mais… e escreva mais tb!
    Beijos

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