17/10/07
MUKAI PEGANDO ÔNIBUS
Era a primeira vez que Mukai entrava em um ônibus. Durante toda sua vida teve carro e motorista para leva-lo onde quisesse. Morava com seu pai viúvo em um grande sobrado construído por seus avós, no fim dos anos quarenta, no bairro Liberdade, em São Paulo.
Sr. Naotaka era comerciante, assim como foi seu pai e como seria Mukai, único filho e herdeiro do grande magazine. Para que não passasse as mesmas dificuldades que passou, sr. Naotaka enviara o filho à França, para estudar administração e gestão de negócios. A escola era mundialmente renomada e ele desejava o melhor para seu pupilo.
Foi em plena Côte D´Azur, mais precisamente em Nice, que Mukai, pela primeira vez na vida, utilizou o transporte coletivo. Foi no primeiro dia de aula. Seu francês ainda era secundário e ele teve dificuldade em diagnosticar o trajeto e o número do bus que o levaria à universidade, mas conseguiu as informações necessárias.
Saiu de casa ainda meio desnorteado com a cor do céu e do mar de Nice, bem diferentes do cinza eterno de São Paulo, que o deixava, naturalmente, entristecido. Em Nice, ele se sentia mais leve, solto, de bom humor, agradecido pelo espetáculo natural em que se tornara qualquer deslocamento. Com a alegria niçoise que lhe cabia, Mukai estendeu o braço direito e deu o sinal ao motorista. O ônibus parou, ele subiu, pagou a sua passagem e inseriu o bilhete na máquina de autenticação, como demandava a instrução do verso. Caminhou pelo espaçoso coletivo, encontrou um lugar vago e sentou-se. No trajeto percebeu que haviam pessoas de diferentes nacionalidades. Italiano, espanhol, inglês, alemão, japonês, russo e árabe foram as línguas que ele conseguiu identificar, além do francês, bien sure. Na janela, ao lado do banco em frente ao seu, havia um adesivo com os dizeres: “Preferência para pessoas: 1º mutiladas de guerra; 2º cegas; 3º acidentadas do trabalho e doentes civis; 4º grávidas ou acompanhadas de crianças com menos que 04 anos.”
Mukai arrepiou-se com a expressão “mutilados de guerra”. A sua única experiência no assunto eram as estórias contadas pelos avós, o que não era muito. Os dois chegaram ao Brasil em um navio repleto de fugitivos da segunda guerra, mas eles nunca gostaram de falar do assunto, o que criou mais mistério e suspense na mente do neto.
Mukai foi salvo por duas italianas que se sentaram neste banco, ambas lindas, morenas, de cabelos íntimos do vento, portando saias curtas e botas. Falavam com a desenvoltura e a entonação charmosa que encantava Mukai, desde os tempos em que almoçava com o pai na Cantina do Roperto, no Bexiga, e era atendido por Apolônia. Às vezes, repetia o creme de papaya só pra ouví-la comandar seu pedido em voz alta, no meio do salão. Mas o que mais gostava era de repetir seu nome, em voz alta, quando se encontrava sozinho.
Distraiu-se escutando os gestos das duas napolitanas. Ele adorava ver o movimento que elas faziam em cada freada. Era como se elas estivessem velejando. E ele imaginava ser o capitão de um barco, dando as ordens que quisesse às duas beldades. À esta altura ele nem se lembrava mais dos mutilados de guerra.
Para seu desgosto, seu entretenimento foi, de repente, interrompido por um movimento diferente. Ele percebeu o motorista conversando com alguém do lado de fora do ônibus, meio contrariado. Em seguida o homem que estava do lado de fora entrou apressado. Ele estava uniformizado com um macacão azul, uma maleta de metal azul, um boné azul e uns óculos de plástico, meio amarelados, que mais pareciam uma máscara.
A passos largos, o intruso chegou ao banco em frente ao de Mukai, onde estavam as musas italianas. Em um francês incompreensível e agressivo ele ordenou às duas que se levantassem. Elas se olharam e se levantaram assustadas. Mukai arregalou os olhos e os ouvidos, principalmente quando escutou a palavra “bomba” sair da boca carnuda de uma das napolitanas. Neste instante ele se lembrou dos avós, do pai, dos mutilados e das notícias sobre atentados por toda a Europa. Sentiu-se completamente indefeso. As italianas desapareceram de sua mente, o céu acinzentou-se e acinzentou o mar e o ônibus parecia diminuir de tamanho a cada instante. As sensações se misturavam dentro de si, deixando-o nauseado e inerte. Sentia uma vontade devastadora de sair correndo dali, mas como ninguém se mexia, ele pensou que este era o procedimento devido numa situação como esta. Mukai se transformou em uma estátua. Suava, respirava e só. O resto do seu corpo estava petrificado. Nem as pálpebras arriscavam piscar. Elas também estavam assustadíssimas.
Em meio a esta babel, ele não conseguiu identificar ninguém que falava sua língua para lhe explicar melhor o que estava acontecendo. Mas, também, não identificara mais nem uma outra língua. Passados eternos minuto e meio, o homem do macacão azul, que, até então, havia aberto a sua maleta e estava trabalhando no banco antes ocupado pelas morenas de botas, vindas da “bota“, levantou-se, grunhiu às italianas que elas podiam sentar-se novamente. Saiu sem despedir-se do motorista e desapareceu. O ônibus voltou a funcionar, as italianas verificaram o que o estranho tinha feito e sentaram-se. O “agente da brigada anti-bombas” era, na realidade, um funcionário da empresa de transportes que havia consertado o banco quebrado onde as beldades estavam sentadas. Aparentemente elas tinham se assustado tanto quanto Mukai. Afinal de contas, foram as primeiras a pensar em bombas.
Mukai liberou o resto de adrenalina que lhe restava no corpo e encostou a cabeça no vidro da janela ao seu lado, sem, nem mesmo, prestar atenção em mais nada. Mais tarde percebeu que não havia mais o balanço do mar no banco da frente. Amaldiçoou o homem de azul pelo susto, mas, sobretudo, por interromper o bailar dos cabelos morenos diante de si.
O ônibus tardou mais dez minutos até a universidade, onde quase todos passageiros desceram. Mukai se dirigiu à sala indicada no seu quadro de horários. Chegando lá, achou uma carteira vazia e sentou-se. Ele olhava distraído pela janela, quando reconheceu as vozes e os cabelos. Eles haviam voltado e estavam, novamente, bem à sua frente. Mukai olhou para o céu, azul como o mar, e sorriu.
Jaime Solares
criado por jaime.mario
10:58 — Arquivado em: 

Comentário por Bel — 19 19UTC outubro 19UTC 2007 @ 11:04
Quando você me contou esta estória ela era mais abreviada e não tinha nenhum Mukai lá… Fiquei feliz ao ler e relembrar a sua vinda rápida ao Brasil. Saudades.
beijo