Contos D’Azur

Blog criado para hospedar alguns contos e outros tantos que saem de uma cabeça navegante, atualmente ancorada em Nice, na Cöte D’Azur francesa.

18/10/07

UM SABADO OUTONAL

“O outono existe”. Foi o que pensou Modesto, ao se despertar naquele sábado. Ele precisava levar seu televisor para o conserto. Estava animado com isso, pois já conhecia a baixa qualidade do serviço francês e estava seguro de que ficaria sem o aparelho por, pelo menos, quinze dias. Ele aproveitaria este tempo para atualizar sua leitura. Estava ansioso para dar prosseguimento ao Martim Cererê, de Cassiano Ricardo, mas este é o tipo de livro que se lê em alta voz e a televisão rivalizava consigo. Cristina não saía mais de sua casa, o que mantinha a televisão ligada mais tempo do que ele gostaria.

Foi animado que ele saiu de casa, acompanhado de sua cherie. Foram para a estação, pois o trem era o meio de transporte mais rápido até o mega-mercado onde o televisor fora comprado e seria consertado. Além do mais, estavam em Nice, na França. Adoravam se locomover de trem, opção não existente em Belo Horizonte. Afinal, os mineiros adoram andar de trem, mesmo que seja só em viagens ao passado!

Pelo caminho, na ida e na volta, pelos trilhos ou a pé, Modesto estava hipnotizado pelo baile das folhas que fugiam das árvores, embaladas pelo vento. Elas saltavam ao chão, que ficava coberto de vermelho e amarelo. O vento tinha um cheiro de orvalho e o frio já exigia que os cachecóis desfilassem pelas ruas da cidade.

A temperatura animou o casal a comprar um Bordeaux rouge e Modesto preparou, em casa, uma deliciosa sopa de cebola gratinada ao gruyère, tipicamente francesa. Os dois se esbaldaram de sopa e de sexo, não necessariamente nesta ordem, mas tudo sempre acompanhado do precioso néctar rubi.

Depois de tanta gula e luxúria, aderiram à preguiça e pecaram até o anoitecer. Só então se levantaram e foram se lavar para dedicar o resto de dia à leitura, tão esperada por Modesto. Ele levantou-se, banhou-se, enxugou-se, agasalhou-se e começou a recitar os versos de Cassiano enquanto Cristina fazia sua higiene entre shampoos, cremes de corpo, de cabelo, de mãos, de pés, faciais, labiais e outonais como o sábado que estavam vivendo.

Modesto começara a recitar a aventura do Gigante nº 4, quando um secador de cabelo e um aquecedor elétrico, simultaneamente ligados, fizeram a treva. Algum fusível se queimara em pleno sábado, às 19:40, hora em que os franceses já estão à mesa e o comércio já encerrou suas atividades. Conclusão: estavam cegos até que o sol resolvesse dar as caras, o que não acontecia muito cedo nesta época do ano, onde nem a estrela-mãe do sistema solar colocava os pés na rua antes das nove. Deitaram-se, então. Começaram a distinguir todos os sons ao seu redor. Em alguns momentos escutaram aranhas fazendo amor. Em outros, era a vizinha búlgara que gemia palavras indecifráveis. Ouviram um discussão conjugal em francês e um sermão em latim. Escutaram pombos e pardais pousarem no telhado em frente à janela e formigas construírem fortalezas na jardineira da vizinha, que continuava fazendo amor em búlgaro.

Ouviram tantos sons que resolveram ouvir suas próprias mentes e fecharam os olhos. Adormeceram. Não ouviram mais nada.

 

Jaime Solares

criado por jaime.mario    16:01 — Arquivado em: Sem categoria

Nenhum Comentário »

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://contosdazur.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.