24/10/07
O BANHO
Olhei pra dentro de mim e vi que estava esfarelando. Levantei e parei diante do espelho. Também esfarelava por fora. Exatamente hoje completa um mês que o André partiu e eu ainda não saí de casa. O chão está coberto pelos meus restos. A cozinha está alagada – não sei se aquela água toda saiu de dentro de mim ou da geladeira, que continua com a porta defeituosa.
Meu corpo implora por um banho, mas eu não tenho ânimo para me lavar. Provavelmente é o medo de me sentir melhor. Um banho desencadearia uma série de eventos que eu não quero viver: depois do banho eu me lambuzaria de cremes, iria a um salão fazer as unhas, talvez aparar o cabelo, desenhar as sobrancelhas. Em seguida poderia comprar algo no shopping, entrar em um cinema ou ligar pra Renata e ir a um japonês badalado do Leblon. Provavelmente encontraria algum amigo do André, me faria de descolada, até me insinuaria. Se este amigo fosse o Bernardo, talvez fosse mesmo pra cama com ele. Quem sabe teria um orgasmo ou dois. Chamaria um táxi e voltaria pra casa onde a cozinha continuaria alagada. No dia seguinte, assim que acordasse, chamaria um técnico. Em seguida faria uma arrumação na casa, catando meus cacos e escondendo meus farelos embaixo do tapete. Depois de alguns dias, estaria recomposta e poderia seguir minha vida sem o André.
Acontece que eu não quero continuar sem o André. Eu me sinto culpada. Eu sei que estraguei tudo. Afinal, uma oportunidade como a que ele teve não poderia ser recusada – ir para a França, ganhando um excelente salário, além de toda a despesa de viagem e de moradia é a glória para um restaurador, principalmente quando o seu empregador é o Museu do Louvre. Eu penso nisso e quero me arrebentar. Eu adoraria me transformar em duas para poder bater em mim mesma, essa provinciana de merda que não tem coragem de evoluir e não passa de uma covarde filha da puta, que se esconde atrás de uma família destroçada e hipócrita que vive uma peça teatral eterna, representando a felicidade onde só existe o desprezo. O que eu quero mesmo é que ele volte. Além de provinciana, hipócrita e covarde, ainda sou egoísta. Ele tirou a sorte grande arrumando uma maneira de se livrar desta pessoa medíocre que, pra evitar um banho, senta na frente do computador e escarra palavras. A passagem ainda está na minha gaveta. Eu só preciso me levantar, tomar um banho e ir à agência remarca-la. Em menos de uma semana desembarcaria em Paris e correria para os braços do André. Faria amor em francês e seria feliz para sempre. Vai lá Penélope, vai lá!!! Agora já estou escrevendo pra mim mesma. Acho que estou louca. Melhor ir tomar um banho.
Jaime Solares
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