Contos D’Azur

Blog criado para hospedar alguns contos e outros tantos que saem de uma cabeça navegante, atualmente ancorada em Nice, na Cöte D’Azur francesa.

25/10/07

A DOIDA DO OITAVO ANDAR

Conheci Marcela na garagem do meu prédio. Eu entrava no meu carro e ela saía do dela. Nos cumprimentamos, mas não ouve diálogo, pois ela estava apressada, como, mais tarde, eu descobriria que sempre estaria. Chegando em casa perguntei à Vanessa se ela já tinha visto a nova vizinha. Ela disse que o Seu Chico, porteiro, havia lhe dado a ficha completa: era uma publicitária, mãe de uma garotinha, casada com um homem bem mais velho, meio doida, que estava sempre xingando o marido. Assim, a apelidamos de doida. Sempre que nos referíamos à ela, era assim: “encontrei a doida no elevador” ou “vi a doida na padaria e ela não parava de xingar o marido”. Na verdade, eu nunca a vira com o marido. As notícias que tinha da Marcela falando alto ou em discussão conjugal eram trazidas por Vanessa que, desde o princípio, antipatizou-se com ela, sem nunca ter lhe dirigido a palavra. Talvez ela nem a encontrasse tanto, mas gostasse de falar mal dela.

Depois de algum tempo, passamos a trocar algumas palavras no percurso do elevador – ela morava no oitavo e eu no décimo-primeiro andar. Marcela era uma mulher muito bonita. Tinha trinta anos, cerca de um metro e setenta, pele clara, ruiva natural, cabelos lisos, acima do pescoço, olhos azuis e um corpo afrancesado, magro, com a bunda sem exageros e os seios descrevendo uma milimétrica curvatura em direção ao chão, seguida de uma disparada em direção ao céu. Tinha sardas no colo do peito e nos ombros. Seus lábios eram apetitosos e seu sorriso tinha toda a malícia despretensiosa das ruivas. Além de tudo isso, como eu disse, ela era ruiva, ou seja, exalava mais ferômônios que as outras mulheres. Vez em quando a via de óculos, o que lhe acrescentava um charme especial. A voz de Marcela era rouca e grave. Eu adorava ouvi-la dizer meu nome. Ela percebia que eu a olhava de forma esfomeada e brincava com minha libido, principalmente se eu estava acompanhado da Vanessa, que sempre fazia um comentário negativo assim que nos afastávamos dela.

Um dia, no aniversário de alguma criança do prédio, eu e Vanessa levamos sua sobrinha para a festa, no pilotis. Lá estava Marcela com sua filha. Ela usava calças e blusa pretas, que apresentavam transparências insinuantes, me deixando louco de vontade de invadi-la ali mesmo. Em determinado momento, enquanto Vanessa tinha saído pra levar embora sua sobrinha, vi que Marcela se dirigia para o elevador. Segui-a e entrei no elevador com ela. Subi e desci sem sair, apenas para lhe pedir seu telefone. Ela não hesitou e, rapidamente, trocamos números e marcamos de nos falarmos na semana seguinte.

Passei dias pensando em ligar-la até que resolvi finalmente fazer o contato. Combinamos de encontrar no estacionamento de um determinado shopping. Eu inventei alguma desculpa pra Vanessa e fui direto do trabalho para meu compromisso. Estava ansioso. Passei o dia inteiro pensando em Marcela. Mesmo assim, consegui me controlar e chegar um pouco atrasado. Nos cumprimentamos, ela entrou no meu carro e eu lhe convidei pra tomar um drinque. Sua resposta foi simples e direta: “Não posso, pois estou com o tempo meio curto. Eu ainda vou jantar com meu namorado e tenho que chegar em casa antes de meu marido dormir. Vamos direto pro motel” Uau!! Aquilo foi como um soco no meio do estômago: namorado, marido e eu! Que confusão! Ela não tinha o menor pudor! Mas eu não comentei nada e me recuperei rapidamente da falta de ar. Virei à esquerda e peguei a direção do motel mais próximo.

Chegando lá, antes mesmo de ficarmos sem graça, já estávamos nos beijando e tirando nossas roupas. A coisa fluíra de maneira natural e o sexo foi a coisa mais alucinante que eu vivera até então. Se existe orgasmo múltiplo masculino, foi isso que aconteceu comigo naquela noite, pois eu nunca tive uma ejaculação tão longa e duradoura. Ela também sentiu o mesmo prazer. Parece que nós fomos feitos pra dar prazer um ao outro. Tudo se encaixou perfeitamente, nós fomos simultâneos em tudo. Em resumo, foi alucinante.

Depois deste dia, ficamos sem nos ver por um bom tempo, até que nos encontramos no meio de uma série de abdominais, em uma praça perto de casa. Dali fomos direto para um motel e expelimos nossos fluido por todos os poros. Foi novamente uma overdose de prazer. Depois do sexo, dentro dos meus braços, ela me contou que estava em processo de separação e que, no dia seguinte, se mudaria para um outro prédio ali perto. Eu também lhe dei a notícia de que brevemente passaria pelo mesmo processo, pois eu e a Vanessa não estávamos bem há bastante tempo. Combinamos de nos vermos outra vez e assim foi feito, numa tarde de terça-feira, em pleno horário comercial. Nos enchemos de prazer enquanto a maioria das pessoas se enchem o saco! Nem preciso dizer o quão delicioso foi, mais uma vez.

Depois deste dia, perdemos contato e só nos encontramos de novo passados seis meses, no mesmo shopping do primeiro encontro. Estávamos os dois saindo do cinema, onde havíamos assistido ao mesmo filme. Ela vestia uma bata rendada, sem sutiã - o que deixava seus seios apontarem pelo leve tecido - uma saia comprida e sandálias, que exibiam seus lindos pés. Estava maravilhosa, como de costume. E agora, assim como eu, estava definitivamente separada. Éramos dois divorciados livres e desimpedidos. Fomos caminhando juntos em direção ao elevador que dava acesso ao estacionamento. Conversamos um pouco sobre o filme, sobre sua filha e, em algum momento, ela contou que havia sido roubada, por isso fora obrigada a comprar um outro telefone e o seu número tinha mudado. Despedimo-nos, desejando sorte um ao outro, e fomos cada um para seu lado. Desta vez, não ouve troca de telefones.

Jaime Solares

criado por jaime.mario    16:14 — Arquivado em: Sem categoria

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