Contos D’Azur

Blog criado para hospedar alguns contos e outros tantos que saem de uma cabeça navegante, atualmente ancorada em Nice, na Cöte D’Azur francesa.

31/10/07

ANDANDO NAS NUVENS

Jorge saía de casa todos os dias por volta das sete, andava um quarteirão e atravessava uma praça até chegar à parada do ônibus. De um lado da praça, havia um colégio de meninas e, neste horário, chegavam as alunas e algumas professoras, criando uma pequena balbúrdia na praça, mas ele nunca prestou atenção, até que, um dia, ele caminhava pela praça, distraído, como sempre, e, de repente, pum, ele trombou em Mariana. Sua atitude foi natural – desculpou-se, ajudou-a a recolher seus livros, desculpou-se mais uma vez e continuou seu caminho. Segundos depois de retomar sua direção, Jorge cometeu o grande erro de sua vida: ele olhou pra trás. Ela caminhava. Mas ela caminhava diferente. Ele nunca tinha visto ninguém caminhar daquele jeito. Ela parecia não tocar o chão. Era como se ela levitasse. O movimento de suas pernas não era recortado como são os movimentos de todos os mortais, era um movimento contínuo, como se feito sobre rodas. O quadril de Mariana era independente. Ele balançava sem exageros e não era ela que comandava o balanço. Parecia que  o quadril levava Mariana consigo e não o contrário. Ela era uma mulher baixa, com não mais do que um metro e cinqüenta e cinco de altura. Tinha os cabelos lisos, grandes e, assim como os olhos, negros como a noite. A pele era alva. Ela aparentava uns vinte e tantos anos e tinha mãos e pés pequenos. Seu corpo era correto, sem nada demais ou de menos, mas o seu andar fazia dele um superlativo de sensualidade. Voltando ao Jorge, ele continuou a olhá-la até que ela desaparecesse dentro da escola. Ficou estático, mesmo depois, até que alguma buzina o despertou do transe. Perdeu o ônibus e chegou atrasado no trabalho, mas, nem mesmo a bronca do patrão, conseguiu tirar da sua mente aquele andar.

Jorge caíra apaixonado pelo andar de Mariana naquele exato instante em que virou o pescoço. Ele não se importava se ela era bonita, feia, inteligente, simpática, ele não se importaria nem mesmo que ela fosse de Marte. A paixão dele era pelos seus movimentos. Mas, claro, ele tentou descobrir mais sobre ela. Foi aí que reparou em sua aparência, soube seu nome, sua profissão (ela lecionava música no tal colégio), soube que ela era órfã de pai e mãe, que fora criada por uma tia e que era solteira. Soube que viera do interior pra assumir a referida cátedra, que vivia no quarteirão de baixo e que já era muito querida nas redondezas, mesmo tendo se instalado há apenas quinze dias. Até Elizabeth, sua esposa, conhecia Mariana, com quem encontrara na barraca de peixe do seu Feliciano, na feira de domingo, e a descrevera como carismática, doce e simpática.

Jorge passou a sair mais cedo de casa. Dizia à esposa que queria chegar antes do Ronaldo no trabalho, pra impressionar o chefe, mas ficava sentado em um banco, esperando Mariana aparecer na esquina e seguir pelo meio da praça até alcançar a porta do liceu. O problema é que ele ficava hipnotizado. E isso acontecia sempre que ela passava, não importa onde ou com quem ele estivesse. Se ele estivesse atravessando uma rua e visse Mariana passar, ele ficava ali parado até ser acordado pelo urro de um caminhão ou pelo xingamento de algum motorista. O andar de Mariana exercia sobre Jorge um poder mais forte que a própria razão.

Passaram-se meses e a obsessão continuava. Jorge agora sonhava, imaginava, visualizava, até fazia amor pensando no caminhar de Mariana. Ele gostava de pensar que ela desfilava pra ele. Mesmo no fim de semana, ele descobrira os horários em que Mariana costumava ir à feira pra vê-la caminhar de sacola na mão. Elizabeth estava até contente, pois o marido estava se encarregando desta tarefa. E, além disso, estava acompanhando-a a missa de domingo, onde se esforçava para sempre ficar atrás de Mariana na fila da comunhão.

Mas os sucessivos atrasos de Jorge esgotaram a paciência do patrão e ele perdeu o emprego. Não contou à esposa, pois precisava da desculpa do trabalho para sair de casa todos os dias cedo. E, como não tinha mais ocupações, Jorge passou esperar Mariana em todos os trajetos que ela fazia. Ele não conseguia segui-la, pois, ao vê-la, ficava imóvel, meio abobado. Mas ele sabia por onde ela passava. Então escolhia as ruas mais longas e se escondia atrás de uma árvore ou sentava em um café, enfim, se posicionava para vê-la passar.

Sem emprego, Jorge não conseguiu mais cumprir suas obrigações. Elizabeth descobriu que Jorge estava desempregado e, em meio a discussões e ausência de explicações plausíveis, Jorge viu sua mulher ir com a filha pra casa da irmã, enquanto ele já não tinha nem mais um teto. Ele passou a dormir na rua, em algum lugar de onde ele pudesse ver Mariana passar.

E foi vivendo assim, como um mendigo, que Jorge, numa tarde de sábado, quando a rua está cheia de carros e de pessoas, viu Mariana sair de casa apressada. Como de costume, ficou olhando de pé, congelado, abestalhado. Desta vez, o molejo de Mariana foi interrompido por um carro, mais apressado do que ela, que quase a jogou pelos ares, mas antes que seu corpo caisse imóvel, como uma marionete adormecida, Mariana vôou. Jorge voltou a si e reagiu rápido: correu, no exato momento em que um outro carro passava, tentando desviar do acidente. Pulou com os dois pés no capô deste carro e vôou atrás de sua amada, pois queria continuar apreciando aquele andar, nem que fosse nas núvens.

 

Jaime Solares

criado por jaime.mario    14:46 — Arquivado em: Sem categoria

3 Comentários »

  1. Comentário por cenira cardoso neto — 31 31UTC outubro 31UTC 2007 @ 19:57

    Lindo filho, continue escrevendo, cada dia está melhor.

    Beijos de quem te ama

  2. Comentário por Mariana — 19 19UTC novembro 19UTC 2007 @ 19:26

    Linda historia primo..y con los nombres de la familia….¡¡¡¡

    muchos cariños…

  3. Comentário por Amana — 26 26UTC abril 26UTC 2008 @ 18:45

    Arrepiei até a sobrancelha. :) Muito bom, este também é dos meus preferidos =)
    Eu tb já me apaixonei pelos movimentos de uma mulher de 1,55m. É mesmo arrebatador, mas graças a deus ela se foi antes de causar estragos e a vida continuou…
    heheh

    Beijos

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