Contos D’Azur

Blog criado para hospedar alguns contos e outros tantos que saem de uma cabeça navegante, atualmente ancorada em Nice, na Cöte D’Azur francesa.

11/11/07

A fia do doutor

Toinho chegou sorridente em casa, com a boca escancarada mostrando os poucos dentes que ainda lhe restavam. Tava feliz da vida. Foi logo falando alto pra Nho Barnabé.

__ Ela falô comigo hoje!
__ Ela quem, misifi?
__ A filha do doutor.
__ Quem?
__ Aquela branquela mais bunita que a luz do dia!
__ E daí? Gente branca também fala, uai.
__ Mas comigo? Um preto magrelo e pobre. Se eu tivesse as vara dos negro de verdade, ainda ia. Pudia sê fama. Mas cum essa birosquinha que eu tenho, nem isso num há de sê. Ela num falô por interesse. Ela falô porque gosta d´eu.
__ E daí? Um tan´de gente gosta d´ocê.
__ Mas é diferente. Ela é diferente.
__ Deixa de sê besta, home!
__ Cê num intende.
__ Tão ixprica.
__ A primera veiz qu´eu vi ela, ela tava brincando com a irmãzinha. Elas jogava uma bola grande. Mas eu, logo de cara, vi qu´ela era muié, num era minina iguar sua irmãzinha. Ela corria mostrando as perna. Ela tava gostando de mostrar as perna pros pião. Todo mundo ficou doido, né. A gente ta acostumado com essas cabrocha queimada de sol e de terra. Ela é diferente. Ela tem a pele que parece barriga de leitãozinho recém-nascido. E os zói!! Parece dois pedaço de céu. Os cabelo são igual lavoura de trigo. Parece até o cabelo do anjo Gabriel. Ela deve sê enviada de Deus mesmo. Aquilo é beleza demais, tudo perfeitin demais da conta. Eu fiquei um tantão de tempo só oiando pr´ela. Ela num me viu desta veiz. Tem otras veiz que ela me viu, mas num sabe fala nossa língua, fala umas palavra tudo imbolada. Deve de querer conversar cumigo, mas num dá conta, coitada. Hoje ela tentou, mas eu sô muito do burro, intão num tendi nada e continuei minha rota, nem parei pra agradecê qui ela falô comigo. Ela é minina boa, muito boa, eu inté casava, si ela queria.
__ Ih!! Tá gamadão, misifi?
__ Dessa veiz eu acho que o peixe me pego! Eu num largo di pensá nela. Eu vô pra roça, vorto da roça, como, drumo, tudo pesando na danada. Até sonhá, eu sonho cum ela. Otro dia sonhei qui a gente tava dançando na quermece de São Francisco. A dançava igual dois dançadr mesmo. ELa tava usando um vistido branco,de renda, bunito igual ela. E ela ria pra mim o tempo todo, c´aqueles dente mais branco qui lua cheia. Ela tava filiz de tá ali cumigo. Eu acho até qui vô comprá um vistido pr´ela cum dinheiro da coieta, qui esse ano tá boa. Eu peço coroner e ele me adianta um pouco.
__ Dêxa de sê besta, fi de Deus!!!!
__ Besta nada! Ela que puxô conversa. Eu qui num tendi nada. Mas se eu dé o vistido, ela vai intendê qu´eu gostei d´ela tê falado cumigo.
__ Cê ta ficando é doido, misifi.
__ Doido nada, ela ta gostando d´eu.
__ Doido!
__ Num amola. Ela gosta e pronto.
__ E o que é que te falou pr´ocê fica desse jeito?
__ Num sei, eu num falo a língua dela, mas eu anotei, pru mó de depois intendê. Aqui ó, ta aqui nu meu borso.
__ I ocê lá sabe iscreve, misifi?
__ Craro, nho Barnabé, nho num se alembra qui aqui tinha a iscola da Sinhá Helena, antes deles vendê a fazenda prêces gringo!
__ Dêxa di istória. O quê que ela falou, afinal?
__ Aqui ó, peguei. Ela disse isso aqui ó: fac iu.

 

Jaime Solares

criado por jaime.mario    1:13 — Arquivado em: Sem categoria

1 Comentário »

  1. Comentário por Amana — 13 13UTC novembro 13UTC 2007 @ 20:05

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    amei!!!
    só vc mesmo!!!!

    hahahahahah

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