26/11/07
O SEGREDO DE CLÓVIS
Como em cada manhã, Clóvis demorou-se ainda cinco minutos na cama depois que o despertador o avisara da hora. Em seguida, como em cada manhã, ele se levantou, esfregou os olhos remelentos, lavou-se, lambuzou o cabelo de gel, vestiu seu terno e foi trabalhar.
Era assistente do diretor comercial de uma empresa de exportação de café, emprego que conseguira com a indicação do tio, logo que chegara à capital como economista recém-formado em uma faculdade que ele nunca se atreveu revelar. Em seu curriculum constava um diploma da UFMG, duas pós-graduações na Fundação Getúlio Vargas e um estágio em uma empresa americana, em Boston. Como nunca ninguém lhe requereu comprovação de nada disso, esta acabou sendo a sua verdade. Clóvis vivia assim, em um mundo criado por ele. Considerava que deveria sempre estar entre os ricos para um dia se tornar um deles, transformando, assim, sua vida em uma ficção. Estava sempre bem vestido, perfumado e freqüentava os melhores locais, gastando até o que não podia. Por diversas vezes fora obrigado a negociar empréstimos em financeiras, bancos, empresas de cartões de créditos, mas, mesmo assim, era visto como um executivo de sucesso, bem quisto nas altas rodas sociais, principalmente depois que noivara com Raquel, filha do presidente da empresa, fato que, aliás, fizera crescer suas dívidas, pois passara a gastar mais. Claro que Clóvis também contava com seu carisma, sua boa cultura, sua fala fluente e envolvente e a sorte de ter nascido belo. Ele era um homem alto, esbelto, com um sorriso singular, mãos finas, pele clara, cabelos negros e olhos azuis, herdados do pai, um francês que se divertira com sua mãe durante um carnaval e de quem ele nunca tivera notícia. Mas tirava proveito de sua descendência européia. Vivia se gabando de ter o nome do primeiro rei da França, aliás, o primeiro rei germânico (originalmente Clóvis era chefe do povo germânico chamado Franc, de onde vem o nome da França) a se converter ao cristianismo. O nosso Clóvis contava toda a história política francesa pra quem quisesse ouvir, sempre ressaltando sua origem.
Voltando àquela manhã que, como em todas as outras, Clóvis saíra de casa pra o trabalho, como era sexta-feira, ele, antes de entrar no arranha-céu onde se instalava o escritório da exportadora, passara, como em cada sexta-feira, pela casa lotérica e jogara seus dois reais semanais. 06, 12, 23, 24, 45 e 46. Este era seu jogo desde os 16 anos. Passaram-se mais de 10 anos, mas ele insistira em sua fé nestes algarismos.
No dia seguinte, como em cada sábado, Clóvis despertara em silêncio, esfregara seus olhos remelentos, lavara-se e saíra de casa, com os cabelos soltos, pra comprar o jornal e o pão. Voltara, preparara seu desjejum e começara a folhear o diário para ver os números sorteados da loteria: 06, 12, 23, 24, 45 e 46. Ele nem precisava conferir. Já sabia de cabeça seu jogo!!! Seu coração disparara e ele continuara a ler. Um ganhador. O prêmio: a bagatela de algumas dezenas de milhões. Era ele! Afinal, ele era milionário! Acabariam suas dívidas!!! Ele estava rico!!!!Ele, Clóvis, agora tinha nome e patrimônio de rei! Sua nobreza não mais seria apenas aparente, ele seria realmente rico, mais rico que muitas das pessoas com quem ele convivia! Ele nunca se sentira tão alegre! Ele griotu, chorou, pulou, correu, não estava se cabendo em si! Parecia explodir.
Na segunda-feira seguinte, como em cada manhã, ele demorou-se ainda cinco minutos na cama depois que o despertador o avisara da hora. Em seguida, como em cada manhã, ele se levantou, esfregou os olhos remelentos, lavou-se, lambuzou o cabelo de gel, vestiu seu terno e foi trabalhar.
Jaime Solares
criado por jaime.mario
22:06 — Arquivado em: 

Comentário por Amana — 26 26UTC abril 26UTC 2008 @ 18:38
=)
Esse foi um dos que eu mais gostei.
Muito bom mesmo.
É incrÃvel como vc está lá.