23/4/08
INSÔNIA
A chuva metralhava o teto do chambre de bonne que Roberto alugava em Paris. Aquele tiroteio, como sempre, recordava-o o último dia em que seus olhos conversaram com seu cérebro e ele enxergou pela última vez, aos dezesseis anos. Foi numa noite como aquela, que ele se deitou e fechou os olhos sãos para, na manhã seguinte, acordar ainda nas trevas, onde permanece até hoje, sem nunca ter sabido a razão de sua sentença. Nem os médicos nunca souberam.
Agora, vinte anos depois, Roberto não conseguia dormir com aquela sinfonia agonizante sobre suas idéias. Ele insistiu durante algumas dezenas de minutos, mas o desconforto venceu o cansaço e Roberto decidiu se levantar pra fazer ele não sabe o quê. Ele seguiu o caminho habitual entre a cama e a única janela do pequeno cômodo, situado no sótão de uma residência de 3 andares. O ambiente era simples e frio: as paredes com a pintura descascada, tendo como único adorno um calendário em Braille decorado, ironicamente, com uma foto do Mont Blanc. O piso era de um carpete ralo e desbotado e os únicos móveis eram um sofá de duas pessoas, próximo à janela; ao centro, uma cadeira velha e uma mesa e, no outro canto, a cama de onde Roberto acabara de se levantar. Ao lado da cama havia uma pequena geladeira que servia, ao mesmo tempo, de criado-mudo. Em cima, alguns livros de Garcia Marquez e Dumas - autores preferidos de Roberto, além de um telefone velho. No parapeito da janela havia um cinzeiro que, de tempos em tempos, Roberto esvaziava ali mesmo, sobre os transeuntes. Toda vez que fazia isso, ele desfrutava de uma estranha sensação de prazer, chegando mesmo a sorrir quando ouvia alguém reclamar da chuva de pontas de Gitannes. No último canto havia uma pia onde uma torneira chorava incessantemente. Naquela noite, entretanto, a chuva parecia intimida-la.
Chegando à janela, Roberto pegou o cinzeiro, fez menção de esvazia-lo e desistiu: pensou que ninguém estaria na rua e, se estivesse, estaria protegido por um guarda-chuvas. Colocou o cinzeiro de volta no parapeito e acendeu um cigarro. Ficou sentado no sofá pensando em Alejandra, uma mestranda mexicana que conhecera em sua palestra desta tarde. Alejandra era a primeira pessoa, em anos, que não pisou em ovos pra conversar com ele. A espontaneidade com que se dirigiu a ele o surpreendeu e o atraiu. Ele pediu seu telefone e ela lhe respondeu que não adiantava ele anotar, pois não poderia lê-lo, então que ele desse o dele. Ele riu, lhe deu seu número e foi surpreendido por um beijo agradecido em sua face direita, onde até agora se sentia o perfume de melissa herdado da descontraída latina. Marcelo, desde então, era capaz de reconhecer os passos de Alejandra em qualquer ambiente. Apoiado na janela, com o Gitannes inflamado, Roberto buscava em sua memória a surpresa daquele beijo e a vibração daqueles passos, mas a tempestade insistia em desafiar sua concentração. Marcelo acendeu o segundo companheiro no cadáver do primeiro e, desta vez, sentou-se no sofá acomodando os cotovelos sobre as pernas, inclinado pra frente, como se não quisesse ficar sentado. Chupou o cigarro mais um pouco e depois atirou-o pela janela ainda aceso, sem nenhum prazer desta vez.
Como por encanto, Alejandra se foi de sua mente. Roberto lembrou-se das Putas Tristes de Garcia Márquez, que começara a ler no metrô, a caminho de casa. Resolveu termina-lo esta noite, então buscou-o na escuridão, sentou-se na cadeira, apoiou o livro sobre a mesa e começou a tateá-lo, iniciando, assim, sua leitura. Alguns minutos passados, seu olfato foi seduzido pelo aroma de amêndoas torradas vindo do cômodo vizinho, onde morava Ina – uma búlgara, estudante de psicologia, simpática e atenciosa. Roberto definitivamente abandonou o livro e aguçou sua audição para os sons vindos do outro lado da parede. Escutou rolhas sendo cuspidas, taças de cristal se beijando e risos ecoando. Provavelmente Pierre, o namorado de Ina, um jovem piloto da Air-France, estava na cidade, trazendo um presente e uma presença para Ina. Mais tarde, se a chuva permitir, com certeza ele escutará Ina fazendo amor em búlgaro e pensará, como sempre, em Krista, personagem de Chico em Budapeste. Sentiu uma ponta de inveja dos dois amantes e entristeceu-se com isso. Tentou pensar novamente em Alejandra, mas não conseguiu. Voltou, então, à leitura.
Jaime Solares
criado por jaime.mario
22:00 — Arquivado em: 

Comentário por Amana — 26 26UTC abril 26UTC 2008 @ 18:01
Nossa, Jaime… Que bom isso! Adorei! Te ler me emociona pra caramba
Fino demais.
Comentário por Henrique — 5 05UTC maio 05UTC 2008 @ 15:17
muito legal seu blog. Te convido a acessar e comentar no meu tbm.
Henrique
Comentário por Vanessa — 15 15UTC agosto 15UTC 2008 @ 13:27
Olá, Já li todos seus contos.. são muito legais e emocionantes.. parabéns..e obrigada por compartilhar conosco.. bjo