Contos D’Azur

Blog criado para hospedar alguns contos e outros tantos que saem de uma cabeça navegante, atualmente ancorada em Nice, na Cöte D’Azur francesa.

26/5/08

Um telegrama

Ricardo abriu com dificuldade o portão do prédio. O síndico não havia consertado a fechadura e ele começou a sentir uma ponta de raiva, mas não estava com ânimo para isso e, muito menos, para reclamar. Encostou a porta, sem fecha-la completamente, para que o próximo morador não tivesse o mesmo problema - aquele era um horário onde muitas pessoas chegavam do trabalho.

Começou a subir a escada, degrau por degrau, precisando fazer um grande esforço. Após o primeiro lance de escadas amaldiçoou-se por ter decidido morar no terceiro andar.

Aquele, definitivamente, não era um bom dia. Desde que o rádio-relógio expulsara-o da cama ao som de algum pagode de merda, seu humor atormentava-o. Veja lá se seis e meia da manhã é hora de tocar pagode nesta porra de rádio!! Assim começara seu dia. A ducha foi um banho de desânimo. Ele tinha comprado xampu e sabão na noite anterior, antes de chegar em casa, mas, claro, tinha esquecido tudo na mesa da sala e agora estava ali, embaixo daquele dilúvio sem sentido, de onde saíra molhando todo o chão em busca dos cosméticos que usaria para lavar a alma de toda essa porcaria de vida e escorregara e batera a mão no vaso de gerânios que sua mãe levara para enfeitar sua casa e que agora transformara o chão um campo minado obrigando-o a tentar inutilmente desviar dos cacos.

No topo do terceiro lance de escadas, ao entrar em casa, Ricardo viu os restos de caco, terra e de sangue pelo chão. Suspirou, despiu-se do blusão cinza que cobria seu uniforme de condutor e pegou um pano para limpar o chão. Esfregava o sangue que insistia em não sair dali. Quanto mais esfregava, mais o sangue se espalhava e os cacos acabavam lhe cortando mais as mãos, sem que ele notasse, o que gerava mais e mais sangue espalhado. Ricardo pensava no garoto que se atirara na frente de um trem há poucas horas. O evento fechou várias linhas e ele ficou mais de duas horas parado entre as estações de Francisco Morato e Palmeiras-Barra Funda. O garoto tinha apenas 16 anos, contou-lhe o seu chefe. De repente, um caco mais pontudo lhe causou dor e só então ele percebera que suas mãos estavam repletas de pequenos cortes. Ricardo suspirou mais uma vez, levantou-se, lavou o pano, as mãos e desta vez pegou um balde e um esfregão. Encheu o balde de água, colocou duas medidas da tampa da garrafa de água sanitária, misturou e, finalmente, limpou o chão com as mãos ainda vazando.

Ricardo sentou-se no vaso sanitário esperando a coragem para entrar outra vez embaixo do chuveiro e ela chegou. Temperou a água antes de se aventurar embaixo dela – primeiro abriu a torneira quente e em seguida a fria, transformando o banheiro em sauna. Antes de se entregar definitivamente ao banho, urinou sentado, sem dar a descarga para não atrapalhar o fluxo da água na ducha. Só então entrou embaixo do chuveiro, molhou os poucos cabelos que lhe restavam e expôs seu rosto ao jato quente, deixando a água escorrer por sua face antes de atingir seu corpo. Ficou assim por minutos, horas, talvez dias. Já tinha os dedos enrugados quando resolveu lavar os cabelos e os baixos. Em seguida, enrolou-se na toalha sem enxugar o corpo e foi ao seu quarto estirar-se na cama sem sentir nenhum cansaço. Toda a fatiga tinha descido pelo ralo. Olhou pela janela e viu o céu iluminado por uma lua imensa que parecia estar mais próxima do que o avião que piscava vermelho e verde em direção ao Rio de Janeiro. Ele pensou que gostaria de ir para praia no fim de semana.

Sem levantar a cabeça, Ricardo moveu o braço até o criado-mudo, pegou o controle da televisão e, sem mesmo olha-lo, ligou a televisão no jornal local esperando noticias do Corinthians. Será que trocaram o treinador? Ele estava animado com a possibilidade da chegada daquele técnico argentino. Sem esperar a notícia, decidiu sair e levantou-se para vestir aquela camisa que Marisa tinha lhe presenteado no aniversário. Iria surpreende-la na saída do seu trabalho no Shopping Osasco. O banho reanimara-o e seu dia, às oito da noite, enfim, parecia ter sentido. Vestiu-se, perfumou-se, penteou-se e até lustrou o sapato. Olhou-se no espelho e gostou. Passou pela cozinha pra beber um copo de água gelada antes de partir. Enquanto bebia a água, verificou seu correio, separou propagandas, contas e notou um telegrama urgente no meio de tudo. Colocou-o no bolso e saiu de casa apressado pra não perder o ônibus das oito e meia. Desceu as escadas e nem se importou com a fechadura defeituosa do portão. Andou a passos largos e chegou na parada do ônibus logo antes deste sair. Enfim, sentou-se aliviado, abriu a janela ao seu lado e tirou o telegrama do bolso da camisa nova. Olhou-o de um lado, de outro, não entendeu bem e abriu-o meticulosamente, pra não estragar a mensagem. O remetente era seu irmão e a mensagem era o anúncio da morte de sua mãe. Ricardo fechou o telegrama, dobrou-o em quatro, recolocou-o no bolso da camisa e deu o sinal.

 

Jaime Solares

criado por jaime.mario    22:34 — Arquivado em: Sem categoria

1 Comentário »

  1. Comentário por Amana — 18 18UTC junho 18UTC 2008 @ 18:48

    nunca sei o que dizer diante das suas coisas que leio, pq não me sinto à altura de fazer um comentário. cada vez que te leio fico tão emocionada e envolvida, que quando o texto acaba e eu te imagino (meu amigo jaime, aquele mesmo, com quem tive tantos momentos incríveis) a escrevê-lo, me sinto das pessoas mais privilegiadas desse mundo. vc tem um mundo inteiro dentro do peito. E conhecer uma pessoa assim, tão repleta de sentimentos e conhecimentos, ainda mais dos que transbordam pra deixar o mundo mais bonito, não pode ser senão um presente de deus. um presente que eu devo mesmo merecer, pois sei bem (e isso me encanta a cada dia) que tenho aí, no meio desse coração tão cheio, um lugarzinho reservado pra mim. isso é mesmo uma grande honra.

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