25/6/08
VOLTA PRA CASA
O sol criava miragens através dos vidros do trem. Luiz não sabia mais distinguir o que era real. As imagens que ele via através do trem, por vezes, não lhe pareciam fazer parte da paisagem. Mais se assemelhavam a momentos de sua vida – alguns deles ainda nem vividos. Foi assim, meio perdido, sonolento, com o rosto encostado na janela, atordoado pelo sol, sem vontade de rir nem de chorar, que ele passou cerca de quarenta minutos dentro de um vagão de segunda classe, indo pra casa, depois de mais um dia frustrante atrás de trabalho. Já se iam vários meses sem emprego, sem rumo e, em realidade, sem razão de ser.
O alto-falante anunciou o nome da estação. Luiz levantou-se e andou calmamente até a porta. Tomou alguns esbarrões dos passageiros que montavam, mas saiu ileso, sem nem mesmo se importar. Ele olhou em volta e viu a folia de pessoas indo e vindo, apressadas, escutou apitos, últimas chamadas, despedidas, reencontros, escutou tanto que de repente o mundo emudeceu. Ele sentiu-se aliviado. Só então deu o primeiro passo em direção à escada. Desceu uma centena de degraus e cruzou o corredor azulejado e repleto de anúncios até chegar à escada rolante para novamente subir até o hall principal da ferroviária. Deixou pessoas apressadas passarem à sua frente e então embarcou. A escada era grande e o tempo que ela gastou o levando até o hall lhe pareceu uma eternidade. Finalmente chegou e caminhou por entre a multidão de turistas que invadiam a cidade naquela época do ano. Ainda parou e olhou, sem nenhum motivo pra isso, o quadro de partidas. Flertou com as horas e resolveu continuar seu caminho. Ele, diferente da maioria das pessoas ali, não tinha pressa, não tinha pra onde ir, a não ser pra casa, terminar o dia ensolarado dentro da minúscula cozinha preparando seu jantar solitário.
Enfim, do lado de fora, viu o ônibus se aproximar. Numa fração de segundos, olhou pra dentro da condução, olhou para o ponto, o relógio da estação e, considerando o número de pessoas que já estavam a bordo, a quantidade que montaria, as horas e sua necessidade de correr alguns metros até a parada, decidiu esperar o próximo. Ficou, então só, sentado, aguardando o próximo carro.
Sozinho, mais uma vez encostado em um vidro (desta vez eram suas costas), ele, por um momento, invejou todas aquelas pessoas que iam em alguma direção. Os carros que passavam, buzinavam, gesticulavam, tinham que chegar rápido, tinham que estar não sabia onde em pouco tempo. E ele? Ele não tinha que estar em lugar nenhum. Sentiu-se triste.
De repente um carro entra na rua e para quase na sua frente, mas à uma distância razoável. O semáforo estava vermelho. Ele percebeu que havia um casal, dentro do carro, na faixa dos cinqüenta anos. De repente, a mulher começou a gritar em uma língua que ele não sabia se era árabe ou hebreu. Ela parecia bastante desesperada e arranhava seu próprio rosto enquanto chorava e gritava a língua confusa e gesticulando violentamente, espancando o painel e a janela. O homem, ao volante, nem se movia, permanecia inerte e alheio, como se aquilo não estivesse acontecendo. O comportamento do homem, um senhor de cabelos curtos e ventre grande, era de tal indiferença que Luiz chegou a pensar que aquilo realmente não estava acontecendo e que só ele estava vendo aquilo. Ele reparou que nos carros em volta, também, ninguém se importava. Ele era o único que sentia uma certa agonia por aquela mulher. Talvez fosse o sol. Talvez fosse ele próprio. Talvez aquela mulher ali, fosse sua alma. Ou talvez fosse só uma briga conjugal.
O semáforo ficou vermelho por horas, mas ao esverdear, os carros partiram em alta velocidade e o veículo onde o desespero viajava dobrou a primeira à direita. O ônibus chegou logo em seguida, na direção contrária. O ponto continuava exclusivo de Luiz e ele subiu em um carro quase vazio. Foi até o fundo, onde havia um banco solteiro, pois não se sentia bem sentando ao lado de outra pessoa. Acomodou-se sem encostar o rosto na janela. Dali, continuou a ver os carros e as pessoas indo e vindo, apressados pra chegar. O sol continuava escaldando suas vistas. Ele pensou em abrir o livro que estava em sua mochila, mas, desta vez, o trajeto foi tão curto que nem deu tempo.
Luiz chegou e subiu os quatro lances de escada, porque o elevador estava ocupado com uma mudança. No segundo lance lembrou que não tinha olhado a caixa de correio. Decidiu deixar pra amanhã, afinal, provavelmente não haveria nada além de publicidade. Entrou em casa, tirou roupa e abriu o livro que pensou em ler dentro do ônibus – Incidente em Antares, de Érico Veríssimo. Recomeçou na página oitenta e quatro, onde tinha parado: o presidente Getúlio Vargas acabara de suicidar-se. Ele fechou o livro e foi ao banheiro. Comera algo que lhe fizera mal.
Jaime Solares
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