Contos D’Azur

Blog criado para hospedar alguns contos e outros tantos que saem de uma cabeça navegante, atualmente ancorada em Nice, na Cöte D’Azur francesa.

17/7/08

LUCIANA TINHA SONO

Luciana acordou. O dia estava bonito, com muito sol, mas fresco, uma brisa acariciando as cortinas de seu quarto. Mal abriu os olhos, espreguiçou-se, deu mais uma mexida no corpo e levantou-se de um pulo, toda animada, feliz, como sempre levantava.

Luciana era assim o dia todo, todos os dias. Ela exalava alegria. Todas as pessoas que a conheciam, diziam nunca terem encontrado alguém mais feliz e sorridente. Luciana era a expressão cotidiana do amor. Ela costumava dizer que faltava gente pra ela amar, que lhe sobrava amor. Ela tinha necessidade de cuidar das pessoas, o que acabava lhe transformando em um porto seguro para amigos desenganados. Além disso, não sabia negar nada a ninguém.

E foi assim que ela despertou naquele dia, exalando sua alegria e seu amor pela vida, pelas pessoas e por tudo o que a cercava. Levantou-se, lavou-se, comeu e saiu desfilando seus pouco mais de metro e meio pouco recheados – ela era franzina, o que lhe dava uma ar eternamente infantil. Luciana saiu, passou em frente à farmácia de Seu Protógenes, cumprimentou-o e ajudou-o a carregar duas caixas pesadas para dentro da loja. No caminho ainda cruzou com o Dr. Aristides, único médico da cidade.

Este é outro detalhe a ser lembrado. Luciana morava em uma pequena vila no interior do país, que tinha apenas um médico, um dentista (que também era alfaiate), dois açougues que se encontram lado a lado (antes era apenas um, mas os irmãos se desentenderam e dividiram o negócio), uma padaria que só funciona pela manhã, a farmácia de Seu Protógenes e o bar/café/restaurante do Espanhol, um tipo meio esquisito, sem um passado bem explicado, o que gerava diversas versões sobre sua vida. Uns diziam que era um ex-guerrilheiro do ETA, outros diziam que ele era um antigo comandante das FARCs colombianas, outros diziam que ele era pernambucano e que fazia tipo só pra chamar atenção pro seu negócio. Enfim, prefeitura, correio, posto de saúde, escola, igreja, tudo em número unitário. A cidade era, no geral pacata e só recebia visitantes nos sábados, quando havia a feira na praça, o que atraía visitantes das cidades vizinhas, em geral em busca das famosas lingüiças do Espanhol, que só as comercializava em sua barraca, nunca no bar/café/restaurante.

Bom, em mais um dia bonito, na pequena cidade, Luciana saiu, ajudou seu Protógenes, cruzou com o Dr. Aristides, trocando com ele um dedinho de prosa, passou em frente ao bar/café/restaurante do Espanhol, cumprimentando algumas pessoas que já estavam ali tomando seu café e ainda conversou um pouco com o padre Pedro sobre a quermesse antes de chegar à agência de correio. Ela desejava enviar uma carta ao Jesse, um americano que passara pela cidade em missão religiosa e com quem ela se correspondia há mais de ano. Entrando na agência, ela cruzou com a Dona Mercedes e esta lhe pediu uma ajuda pra fazer os doces da festa de aniversário de se netinho. Luciana, claro, aceitou ajudar e tratou com ela para aquela tarde.

Depois de selar, pagar e colocar a carta na caixa da agência dos correios, Luciana foi pra escola, onde daria a aula de música para os alunos da segunda série. Ela tocava violino e ministrava o curso todos os dias, cada dia pra uma classe.

O dia de Luciana passou assim, como todos os dias – sorrisos, aula, ajuda pra uns e outros, missa das seis e retorno pra casa. À noite, ela preparou seu jantar: um pouco de ragu com banana frita, farinha e salada. Fez também uma limonada e comeu de sobremesa uma fatia grossa de abacaxi.

Luciana ainda escutou um pouco o rádio e depois foi fazer suas preces antes de se deitar.

Luciana deitou-se e dormiu. Dormiu e nunca mais acordou. Alguns dias depois encontraram ao lado de sua cama o vidro de remédios que ela roubara na farmácia de Seu Protógenes. Eram calmantes fortíssimos. O vidro estava vazio.

 

 

Jaime Solares

criado por jaime.mario    12:39 — Arquivado em: Sem categoria

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