Contos D’Azur

Blog criado para hospedar alguns contos e outros tantos que saem de uma cabeça navegante, atualmente ancorada em Nice, na Cöte D’Azur francesa.

14/8/08

Dia de praia

Existem momentos aos quais não damos importância. Mas são instantes mágicos, que podem transformar a vida de alguém. O momento que descreverei é um deles. Pra melhor me fazer entender, preciso contar uma pequena situação.

Estevão estava desempregado há meses. Sua mulher vinha sustentando a casa e o bebê fazendo faxinas, passando roupas e cuidando de crianças. Ele, na falta do que fazer, tinha se transformado em “dona de casa”. Enquanto ela ganhava o dinheiro, ele fazia as tarefas domésticas, tais como lavar a roupa, faxinar a casa, cuidar do bebê, preparar a comida, enfim, se ocupava de todos os requisitos de uma vida digna dentro de uma casa.

Naquele sábado, Cláudia saiu pra mais uma série de faxinas. Ela estava esgotada, com dores nas pernas e com o sono atrasado. Mesmo assim, levantou-se sem reclamar e ainda com o bom humor que nem as dificuldades conseguiram lhe roubar. Estevão, então, decidiu ajudá-la. Aline, amiga de Cláudia, ficou em casa cuidando do nenê. Saíram os dois, embaixo de 36 graus de sol pra varrer, passar pano, lustrar, tirar poeira, limpar, lavar, bater tapete e tudo o mais pra deixar os apartamentos limpos.

Foram mais de 7 horas ininterruptas de faxinas. Os dois saíram da última com uma sacola cheia de roupas de cama e toalhas sujas. Precisavam levar isso ao depósito de material de limpeza dos donos dos apartamentos (eram todos apartamentos de aluguel). Não sabiam o que pesava mais: a sacola ou as pernas, que insistiam em não sair do chão. Cada passo era pesado como o do boi guia.

Na rua, pessoas iam e vinham em biquínis, sungas, com barracas, esteiras, queimadas de sol. Outros estavam sentados em mesas sortidas de garrafas de cerveja, taças de rosé e pratinhos de petiscos. Haviam também máquinas de fotos explodindo aqui e acolá com modelos sorridentes registrando suas alegrias. Mas ele, Estevão e Cláudia estavam suados, com sede, fome e com o pouco dinheiro que ganharam naquele dia. Lembraram do filho e de que deveriam comprar o leite da semana. O dinheiro apenas dava pra isso. Sobravam uns míseros trocados.

Deixaram as roupas no depósito e foram para a estação do trem. Chegando lá, sentaram-se e, minutos depois, Cláudia disse “Não é possível que a gente não possa nem beber uma água, meu bem. Eu vou usar este troco pra comprar duas garrafinhas de água pra nós. Estevão nem se manifestou, tamanho o seu cansaço.

Foi aí que aconteceu o momento. Cláudia se levantou e foi ao bar mais próximo comprar as águas. Estevão ficou ali, sozinho, com a cabeça encostada na parede, quase adormecido. Aqueles minutos que Cláudia gastou indo em busca da libertadora água, Estevão gastou pensando em tudo aquilo, naquele dia, em todos os dias, em tudo o que vivera até então, nas coisas boas e más que já vivera com Cláudia, no filho, no passado, no presente e no futuro. Foi uma reflexão rápida, mas muito profunda. De repente lhe passou pela cabeça que ela poderia não voltar. Em seguida, lhe passou pela cabeça que ele poderia fugir dali e nunca mais aparecer. Foi um segundo, mas foi muito tempo. Os pensamentos de Estevão se aceleraram, ele começou a se sentir tonto, perdido, quase desesperado. Lembrou de quando souberam da gravidez, das dificuldades do parto, de quando ficou desempregado e o nível de vida caiu, de como Cláudia nunca reclamou de nada, de como ele sofria cada dia que ela saía pra trabalhar e ele ficava em casa, lembrou de quando era criança e de quando era adolescente. Sentiu uma náusea, sua cabeça girou, tudo vinha à sua mente de uma só vez. Ele se levantou, deu umas duas voltas em torno de si mesmo e voltou a sentar.

De repente, a voz de Cláudia lhe trouxe de volta Ela dizia que comprara apenas uma garrafa de água, pois estava muito caro. Ela bebeu metade e lhe passou o resto.

Estevão bebeu um pouco da água, devolveu-lhe a garrafa e lhe cedeu espaço pra sentar ao seu lado. Dois minutos depois, o trem estava lá. Ele lhe deu a mão para embarcar e eles se sentaram. Estevão ficou ao lado da janela. Ele olhou pra fora. O céu estava lindo. O sol continuava alto, mesmo àquela hora. Ele olhou pra Cláudia e lhe perguntou se ela tinha ânimo de ir à praia. Ela disse que sim. Ele beijou sua face e voltou a olhar pro lado de fora. O céu ficara mais bonito.

 

 

Jaime Solares

criado por jaime.mario    16:24 — Arquivado em: Sem categoria

3 Comentários »

  1. Comentário por Michelle — 16 16UTC agosto 16UTC 2008 @ 16:31

    A vida é um lindo conto!!

  2. Comentário por Alexandre — 19 19UTC agosto 19UTC 2008 @ 0:57

    Bem sutil esse etexto. Muito bom!

    Interessante tb os nomes!!!

  3. Comentário por Mariana — 9 09UTC setembro 09UTC 2008 @ 23:27

    Querido primo…¡¡¡ es un cuento precioso…me gustó mucho
    un abrazo…

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