Contos D’Azur

Blog criado para hospedar alguns contos e outros tantos que saem de uma cabeça navegante, atualmente ancorada em Nice, na Cöte D’Azur francesa.

25/10/07

A DOIDA DO OITAVO ANDAR

Conheci Marcela na garagem do meu prédio. Eu entrava no meu carro e ela saía do dela. Nos cumprimentamos, mas não ouve diálogo, pois ela estava apressada, como, mais tarde, eu descobriria que sempre estaria. Chegando em casa perguntei à Vanessa se ela já tinha visto a nova vizinha. Ela disse que o Seu Chico, porteiro, havia lhe dado a ficha completa: era uma publicitária, mãe de uma garotinha, casada com um homem bem mais velho, meio doida, que estava sempre xingando o marido. Assim, a apelidamos de doida. Sempre que nos referíamos à ela, era assim: “encontrei a doida no elevador” ou “vi a doida na padaria e ela não parava de xingar o marido”. Na verdade, eu nunca a vira com o marido. As notícias que tinha da Marcela falando alto ou em discussão conjugal eram trazidas por Vanessa que, desde o princípio, antipatizou-se com ela, sem nunca ter lhe dirigido a palavra. Talvez ela nem a encontrasse tanto, mas gostasse de falar mal dela.

Depois de algum tempo, passamos a trocar algumas palavras no percurso do elevador – ela morava no oitavo e eu no décimo-primeiro andar. Marcela era uma mulher muito bonita. Tinha trinta anos, cerca de um metro e setenta, pele clara, ruiva natural, cabelos lisos, acima do pescoço, olhos azuis e um corpo afrancesado, magro, com a bunda sem exageros e os seios descrevendo uma milimétrica curvatura em direção ao chão, seguida de uma disparada em direção ao céu. Tinha sardas no colo do peito e nos ombros. Seus lábios eram apetitosos e seu sorriso tinha toda a malícia despretensiosa das ruivas. Além de tudo isso, como eu disse, ela era ruiva, ou seja, exalava mais ferômônios que as outras mulheres. Vez em quando a via de óculos, o que lhe acrescentava um charme especial. A voz de Marcela era rouca e grave. Eu adorava ouvi-la dizer meu nome. Ela percebia que eu a olhava de forma esfomeada e brincava com minha libido, principalmente se eu estava acompanhado da Vanessa, que sempre fazia um comentário negativo assim que nos afastávamos dela.

Um dia, no aniversário de alguma criança do prédio, eu e Vanessa levamos sua sobrinha para a festa, no pilotis. Lá estava Marcela com sua filha. Ela usava calças e blusa pretas, que apresentavam transparências insinuantes, me deixando louco de vontade de invadi-la ali mesmo. Em determinado momento, enquanto Vanessa tinha saído pra levar embora sua sobrinha, vi que Marcela se dirigia para o elevador. Segui-a e entrei no elevador com ela. Subi e desci sem sair, apenas para lhe pedir seu telefone. Ela não hesitou e, rapidamente, trocamos números e marcamos de nos falarmos na semana seguinte.

Passei dias pensando em ligar-la até que resolvi finalmente fazer o contato. Combinamos de encontrar no estacionamento de um determinado shopping. Eu inventei alguma desculpa pra Vanessa e fui direto do trabalho para meu compromisso. Estava ansioso. Passei o dia inteiro pensando em Marcela. Mesmo assim, consegui me controlar e chegar um pouco atrasado. Nos cumprimentamos, ela entrou no meu carro e eu lhe convidei pra tomar um drinque. Sua resposta foi simples e direta: “Não posso, pois estou com o tempo meio curto. Eu ainda vou jantar com meu namorado e tenho que chegar em casa antes de meu marido dormir. Vamos direto pro motel” Uau!! Aquilo foi como um soco no meio do estômago: namorado, marido e eu! Que confusão! Ela não tinha o menor pudor! Mas eu não comentei nada e me recuperei rapidamente da falta de ar. Virei à esquerda e peguei a direção do motel mais próximo.

Chegando lá, antes mesmo de ficarmos sem graça, já estávamos nos beijando e tirando nossas roupas. A coisa fluíra de maneira natural e o sexo foi a coisa mais alucinante que eu vivera até então. Se existe orgasmo múltiplo masculino, foi isso que aconteceu comigo naquela noite, pois eu nunca tive uma ejaculação tão longa e duradoura. Ela também sentiu o mesmo prazer. Parece que nós fomos feitos pra dar prazer um ao outro. Tudo se encaixou perfeitamente, nós fomos simultâneos em tudo. Em resumo, foi alucinante.

Depois deste dia, ficamos sem nos ver por um bom tempo, até que nos encontramos no meio de uma série de abdominais, em uma praça perto de casa. Dali fomos direto para um motel e expelimos nossos fluido por todos os poros. Foi novamente uma overdose de prazer. Depois do sexo, dentro dos meus braços, ela me contou que estava em processo de separação e que, no dia seguinte, se mudaria para um outro prédio ali perto. Eu também lhe dei a notícia de que brevemente passaria pelo mesmo processo, pois eu e a Vanessa não estávamos bem há bastante tempo. Combinamos de nos vermos outra vez e assim foi feito, numa tarde de terça-feira, em pleno horário comercial. Nos enchemos de prazer enquanto a maioria das pessoas se enchem o saco! Nem preciso dizer o quão delicioso foi, mais uma vez.

Depois deste dia, perdemos contato e só nos encontramos de novo passados seis meses, no mesmo shopping do primeiro encontro. Estávamos os dois saindo do cinema, onde havíamos assistido ao mesmo filme. Ela vestia uma bata rendada, sem sutiã - o que deixava seus seios apontarem pelo leve tecido - uma saia comprida e sandálias, que exibiam seus lindos pés. Estava maravilhosa, como de costume. E agora, assim como eu, estava definitivamente separada. Éramos dois divorciados livres e desimpedidos. Fomos caminhando juntos em direção ao elevador que dava acesso ao estacionamento. Conversamos um pouco sobre o filme, sobre sua filha e, em algum momento, ela contou que havia sido roubada, por isso fora obrigada a comprar um outro telefone e o seu número tinha mudado. Despedimo-nos, desejando sorte um ao outro, e fomos cada um para seu lado. Desta vez, não ouve troca de telefones.

Jaime Solares

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24/10/07

O BANHO

Olhei pra dentro de mim e vi que estava esfarelando. Levantei e parei diante do espelho. Também esfarelava por fora. Exatamente hoje completa um mês que o André partiu e eu ainda não saí de casa. O chão está coberto pelos meus restos. A cozinha está alagada – não sei se aquela água toda saiu de dentro de mim ou da geladeira, que continua com a porta defeituosa.

Meu corpo implora por um banho, mas eu não tenho ânimo para me lavar. Provavelmente é o medo de me sentir melhor. Um banho desencadearia uma série de eventos que eu não quero viver: depois do banho eu me lambuzaria de cremes, iria a um salão fazer as unhas, talvez aparar o cabelo, desenhar as sobrancelhas. Em seguida poderia comprar algo no shopping, entrar em um cinema ou ligar pra Renata e ir a um japonês badalado do Leblon. Provavelmente encontraria algum amigo do André, me faria de descolada, até me insinuaria. Se este amigo fosse o Bernardo, talvez fosse mesmo pra cama com ele. Quem sabe teria um orgasmo ou dois. Chamaria um táxi e voltaria pra casa onde a cozinha continuaria alagada. No dia seguinte, assim que acordasse, chamaria um técnico. Em seguida faria uma arrumação na casa, catando meus cacos e escondendo meus farelos embaixo do tapete. Depois de alguns dias, estaria recomposta e poderia seguir minha vida sem o André.

Acontece que eu não quero continuar sem o André. Eu me sinto culpada. Eu sei que estraguei tudo. Afinal, uma oportunidade como a que ele teve não poderia ser recusada – ir para a França, ganhando um excelente salário, além de toda a despesa de viagem e de moradia é a glória para um restaurador, principalmente quando o seu empregador é o Museu do Louvre. Eu penso nisso e quero me arrebentar. Eu adoraria me transformar em duas para poder bater em mim mesma, essa provinciana de merda que não tem coragem de evoluir e não passa de uma covarde filha da puta, que se esconde atrás de uma família destroçada e hipócrita que vive uma peça teatral eterna, representando a felicidade onde só existe o desprezo. O que eu quero mesmo é que ele volte. Além de provinciana, hipócrita e covarde, ainda sou egoísta. Ele tirou a sorte grande arrumando uma maneira de se livrar desta pessoa medíocre que, pra evitar um banho, senta na frente do computador e escarra palavras. A passagem ainda está na minha gaveta. Eu só preciso me levantar, tomar um banho e ir à agência remarca-la. Em menos de uma semana desembarcaria em Paris e correria para os braços do André. Faria amor em francês e seria feliz para sempre. Vai lá Penélope, vai lá!!! Agora já estou escrevendo pra mim mesma. Acho que estou louca. Melhor ir tomar um banho.

 

Jaime Solares

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18/10/07

UM SABADO OUTONAL

“O outono existe”. Foi o que pensou Modesto, ao se despertar naquele sábado. Ele precisava levar seu televisor para o conserto. Estava animado com isso, pois já conhecia a baixa qualidade do serviço francês e estava seguro de que ficaria sem o aparelho por, pelo menos, quinze dias. Ele aproveitaria este tempo para atualizar sua leitura. Estava ansioso para dar prosseguimento ao Martim Cererê, de Cassiano Ricardo, mas este é o tipo de livro que se lê em alta voz e a televisão rivalizava consigo. Cristina não saía mais de sua casa, o que mantinha a televisão ligada mais tempo do que ele gostaria.

Foi animado que ele saiu de casa, acompanhado de sua cherie. Foram para a estação, pois o trem era o meio de transporte mais rápido até o mega-mercado onde o televisor fora comprado e seria consertado. Além do mais, estavam em Nice, na França. Adoravam se locomover de trem, opção não existente em Belo Horizonte. Afinal, os mineiros adoram andar de trem, mesmo que seja só em viagens ao passado!

Pelo caminho, na ida e na volta, pelos trilhos ou a pé, Modesto estava hipnotizado pelo baile das folhas que fugiam das árvores, embaladas pelo vento. Elas saltavam ao chão, que ficava coberto de vermelho e amarelo. O vento tinha um cheiro de orvalho e o frio já exigia que os cachecóis desfilassem pelas ruas da cidade.

A temperatura animou o casal a comprar um Bordeaux rouge e Modesto preparou, em casa, uma deliciosa sopa de cebola gratinada ao gruyère, tipicamente francesa. Os dois se esbaldaram de sopa e de sexo, não necessariamente nesta ordem, mas tudo sempre acompanhado do precioso néctar rubi.

Depois de tanta gula e luxúria, aderiram à preguiça e pecaram até o anoitecer. Só então se levantaram e foram se lavar para dedicar o resto de dia à leitura, tão esperada por Modesto. Ele levantou-se, banhou-se, enxugou-se, agasalhou-se e começou a recitar os versos de Cassiano enquanto Cristina fazia sua higiene entre shampoos, cremes de corpo, de cabelo, de mãos, de pés, faciais, labiais e outonais como o sábado que estavam vivendo.

Modesto começara a recitar a aventura do Gigante nº 4, quando um secador de cabelo e um aquecedor elétrico, simultaneamente ligados, fizeram a treva. Algum fusível se queimara em pleno sábado, às 19:40, hora em que os franceses já estão à mesa e o comércio já encerrou suas atividades. Conclusão: estavam cegos até que o sol resolvesse dar as caras, o que não acontecia muito cedo nesta época do ano, onde nem a estrela-mãe do sistema solar colocava os pés na rua antes das nove. Deitaram-se, então. Começaram a distinguir todos os sons ao seu redor. Em alguns momentos escutaram aranhas fazendo amor. Em outros, era a vizinha búlgara que gemia palavras indecifráveis. Ouviram um discussão conjugal em francês e um sermão em latim. Escutaram pombos e pardais pousarem no telhado em frente à janela e formigas construírem fortalezas na jardineira da vizinha, que continuava fazendo amor em búlgaro.

Ouviram tantos sons que resolveram ouvir suas próprias mentes e fecharam os olhos. Adormeceram. Não ouviram mais nada.

 

Jaime Solares

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17/10/07

MUKAI PEGANDO ÔNIBUS

Era a primeira vez que Mukai entrava em um ônibus. Durante toda sua vida teve carro e motorista para leva-lo onde quisesse. Morava com seu pai viúvo em um grande sobrado construído por seus avós, no fim dos anos quarenta, no bairro Liberdade, em São Paulo.

Sr. Naotaka era comerciante, assim como foi seu pai e como seria Mukai, único filho e herdeiro do grande magazine. Para que não passasse as mesmas dificuldades que passou, sr. Naotaka enviara o filho à França, para estudar administração e gestão de negócios. A escola era mundialmente renomada e ele desejava o melhor para seu pupilo.

Foi em plena Côte D´Azur, mais precisamente em Nice, que Mukai, pela primeira vez na vida, utilizou o transporte coletivo. Foi no primeiro dia de aula. Seu francês ainda era secundário e ele teve dificuldade em diagnosticar o trajeto e o número do bus que o levaria à universidade, mas conseguiu as informações necessárias.

Saiu de casa ainda meio desnorteado com a cor do céu e do mar de Nice, bem diferentes do cinza eterno de São Paulo, que o deixava, naturalmente, entristecido. Em Nice, ele se sentia mais leve, solto, de bom humor, agradecido pelo espetáculo natural em que se tornara qualquer deslocamento. Com a alegria niçoise que lhe cabia, Mukai estendeu o braço direito e deu o sinal ao motorista. O ônibus parou, ele subiu, pagou a sua passagem e inseriu o bilhete na máquina de autenticação, como demandava a instrução do verso. Caminhou pelo espaçoso coletivo, encontrou um lugar vago e sentou-se. No trajeto percebeu que haviam pessoas de diferentes nacionalidades. Italiano, espanhol, inglês, alemão, japonês, russo e árabe foram as línguas que ele conseguiu identificar, além do francês, bien sure. Na janela, ao lado do banco em frente ao seu, havia um adesivo com os dizeres: “Preferência para pessoas: 1º mutiladas de guerra; 2º cegas; 3º acidentadas do trabalho e doentes civis; 4º grávidas ou acompanhadas de crianças com menos que 04 anos.”

Mukai arrepiou-se com a expressão “mutilados de guerra”. A sua única experiência no assunto eram as estórias contadas pelos avós, o que não era muito. Os dois chegaram ao Brasil em um navio repleto de fugitivos da segunda guerra, mas eles nunca gostaram de falar do assunto, o que criou mais mistério e suspense na mente do neto.

Mukai foi salvo por duas italianas que se sentaram neste banco, ambas lindas, morenas, de cabelos íntimos do vento, portando saias curtas e botas. Falavam com a desenvoltura e a entonação charmosa que encantava Mukai, desde os tempos em que almoçava com o pai na Cantina do Roperto, no Bexiga, e era atendido por Apolônia. Às vezes, repetia o creme de papaya só pra ouví-la comandar seu pedido em voz alta, no meio do salão. Mas o que mais gostava era de repetir seu nome, em voz alta, quando se encontrava sozinho.

Distraiu-se escutando os gestos das duas napolitanas. Ele adorava ver o movimento que elas faziam em cada freada. Era como se elas estivessem velejando. E ele imaginava ser o capitão de um barco, dando as ordens que quisesse às duas beldades. À esta altura ele nem se lembrava mais dos mutilados de guerra.

Para seu desgosto, seu entretenimento foi, de repente, interrompido por um movimento diferente. Ele percebeu o motorista conversando com alguém do lado de fora do ônibus, meio contrariado. Em seguida o homem que estava do lado de fora entrou apressado. Ele estava uniformizado com um macacão azul, uma maleta de metal azul, um boné azul e uns óculos de plástico, meio amarelados, que mais pareciam uma máscara.

A passos largos, o intruso chegou ao banco em frente ao de Mukai, onde estavam as musas italianas. Em um francês incompreensível e agressivo ele ordenou às duas que se levantassem. Elas se olharam e se levantaram assustadas. Mukai arregalou os olhos e os ouvidos, principalmente quando escutou a palavra “bomba” sair da boca carnuda de uma das napolitanas. Neste instante ele se lembrou dos avós, do pai, dos mutilados e das notícias sobre atentados por toda a Europa. Sentiu-se completamente indefeso. As italianas desapareceram de sua mente, o céu acinzentou-se e acinzentou o mar e o ônibus parecia diminuir de tamanho a cada instante. As sensações se misturavam dentro de si, deixando-o nauseado e inerte. Sentia uma vontade devastadora de sair correndo dali, mas como ninguém se mexia, ele pensou que este era o procedimento devido numa situação como esta. Mukai se transformou em uma estátua. Suava, respirava e só. O resto do seu corpo estava petrificado. Nem as pálpebras arriscavam piscar. Elas também estavam assustadíssimas.

Em meio a esta babel, ele não conseguiu identificar ninguém que falava sua língua para lhe explicar melhor o que estava acontecendo. Mas, também, não identificara mais nem uma outra língua. Passados eternos minuto e meio, o homem do macacão azul, que, até então, havia aberto a sua maleta e estava trabalhando no banco antes ocupado pelas morenas de botas, vindas da “bota“, levantou-se, grunhiu às italianas que elas podiam sentar-se novamente. Saiu sem despedir-se do motorista e desapareceu. O ônibus voltou a funcionar, as italianas verificaram o que o estranho tinha feito e sentaram-se. O “agente da brigada anti-bombas” era, na realidade, um funcionário da empresa de transportes que havia consertado o banco quebrado onde as beldades estavam sentadas. Aparentemente elas tinham se assustado tanto quanto Mukai. Afinal de contas, foram as primeiras a pensar em bombas.

Mukai liberou o resto de adrenalina que lhe restava no corpo e encostou a cabeça no vidro da janela ao seu lado, sem, nem mesmo, prestar atenção em mais nada. Mais tarde percebeu que não havia mais o balanço do mar no banco da frente. Amaldiçoou o homem de azul pelo susto, mas, sobretudo, por interromper o bailar dos cabelos morenos diante de si.

O ônibus tardou mais dez minutos até a universidade, onde quase todos passageiros desceram. Mukai se dirigiu à sala indicada no seu quadro de horários. Chegando lá, achou uma carteira vazia e sentou-se. Ele olhava distraído pela janela, quando reconheceu as vozes e os cabelos. Eles haviam voltado e estavam, novamente, bem à sua frente. Mukai olhou para o céu, azul como o mar, e sorriu.

 

Jaime Solares

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15/10/07

O PAI DO JOGADOR

A enfermeira sai da sala de parto e anuncia o sexo do bebê ao pai ansioso. “Eu sabia!” disse ele de forma entusiástica, já retirando, da sua bolsa, o uniforme do Atlético.

Passada meia hora, Raimundo entra na enfermaria para ver às quantas ia Neuza.  Poucos  instantes depois, entra a enfermeira trazendo Reinaldo, já devidamente vestido de atleticano, como pedido pelo pai orgulhoso. Neuza torce o nariz. Tinha recomendado várias vezes ao marido para não levar o uniforme para o hospital. Era seu primeiro filho e ela não gostaria de vê-lo sair fantasiado da maternidade. O argumento paterno era surreal: “Quando ele chegar ao time profissional, nós venderemos estas fotos pra imprensa.”

Depois de alguns dias, já em casa, Raimundo chega do trabalho com a primeira bola do futuro craque. Saca mais fotos para satisfazer a futura fome da imprensa esportiva, afinal, todo registro do sucessor de Pelé vale a pena.

O quarto de Reizinho é repleto de flâmulas, de fotos antigas de esquadrões alvi-negros de todos os tempos. Toda noite, Raimundo sentava-se ao lado do berço do filho e conversava com ele: “Olhe aquela foto ali. Aquele é o Reinaldo, seu xará, meu filho. Foi dele que você herdou o nome e, com certeza, o talento. Você ainda não sabe, mas eu também comecei minha carreira no juvenil do Galo. Jogava com o Rei. Se não fosse o meu problema no joelho, eu teria chegado à seleção. Mas você não vai ter problema nenhum. Você vai conseguir, meu filho. Eu tenho certeza!” O herdeiro dormia e Raimundo se levantava pra sonhar com os futuros dribles do filho.

Reinaldo começou a andar bem novo. Não tinha nem completado o primeiro ano de vida. Pra Raimundo, essa  era mis uma prova de que ele seria um craque daqueles que são bem mais rápidos que os zagueiros adversários. Chegaria aos profissionais antes dos dezessete anos e aos dezoito já estaria disputando sua primeira copa do mundo. Raimundo estava orgulhoso, adorava contar como o filho já conseguia caminhar conduzindo a bola: “É um controle perfeito, uma intimidade impressionante com a bola! O garoto é pré-destinado.”

Aos sete anos, Reinaldo começou a treinar na escolinha do Sete de Setembro. Todos que o viam jogar, diziam que seria o próximo Maradona. Ele tinha uma perna esquerda incomparável. A bola grudava em seu pé de forma que ninguém conseguia tira-la. Rapidamente, estava jogando com os garotos mais velhos. Ele era o menor, mas todos queriam jogar ao seu lado. Ele era o melhor da região.
Rapidamente seu talento foi reconhecido por um dos olheiros do Atlético e, aos doze anos, Reinaldo viu o pai chorar ao assistir seu primeiro treino na equipe infantil do clube. Raimundo estava que era só alegria. A mãe sempre preocupada com os estudos, mas Raimundo dizia que eles não precisavam se ocupar com isso, pois Reinaldo faria tanto sucesso, que seria mais rico que qualquer doutor e que os dias difíceis estavam com os dias contados.

Rei, como já era chamado, assinou seu primeiro contato aos dezesseis anos, com a tutela paterna. Era um valor razoável, o suficiente até os dezoito anos. Depois tudo seria renegociado.

Rei foi o artilheiro do campeonato nos dois anos de contrato. Ele era o ídolo da torcida e vários clubes estavam interessados em seus serviços, mesmo clubes europeus. Tudo parecia um sonho para Raimundo.

Ao final do segundo ano de contrato, Raimundo sofreu um sério problema pulmonar, fruto de todos os anos que fumou, diariamente, mais de quarenta cigarros . Mesmo no hospital, ele acompanhava os jogos do filho. Todos os pacientes o saudavam e felicitavam pela sorte de ter um craque daqueles em casa. Ele ficou cerca de dois meses hospitalizado, mas, ao final, não resistiu e faleceu.

No dia do jogo decisivo do campeonato, o Atlético prestou uma homenagem póstuma a Raimundo. Reinaldo fez o gol do título e, durante a comemoração, mostrou uma camiseta com a foto do pai. Esta cena encapou todos os jornais e revistas no dia seguinte. Foi um jogo que emocionou até os adversários. Neuza levantou o troféu junto com Reinaldo e todos os jogadores do time o levantaram em seus ombros, agradecendo a grande performance do jovem talento.

Uma semana depois, Reinaldo se encontrou com o presidente do clube para decidir seu futuro. Toda a imprensa esportiva local estava de plantão na porta do clube. O garoto entrou acompanhado da mãe e saiu menos de vinte minutos depois. Não disse nada à imprensa. A excitação era geral. Todos queriam saber o que se passara lá dentro.

O presidente do clube saiu de sua sala com a expressão de quem acabara de ver um fantasma. Sem esperar as perguntas dos jornalistas, ele anunciou:

“Reinaldo não faz mais parte do nosso plantel. E nem de outro clube. Ele encerrou sua carreira futebolística e vai prestar vestibular para direito. Ele quer ser advogado.”

 

Jaime Solares

criado por jaime.mario    14:25 — Arquivado em: Sem categoria

A GAROTA DA PADARIA

Outra segunda-feira grita no despertador de Bento. Seis e meia da matina. A água da pia gela seu rosto e acaba de desperta-lo. Ele se veste, se penteia. Usa a colônia comprada na semana passada. Pagou caro, claro, afinal, a colega da repartição trouxe de Paris. Desce os três lances de escada e vai à padaria comprar seu desjejum: pão fresco, presunto, mussarela e uma caixa de figos secos.

A balconista lhe atende sorridente, lhe desejando um dia de gente, pois dia de cão terá ela trás daquele balcão. Ela lhe fatia as 150 gramas de cada dia e lhe entrega o pão branco, que tostado ele não gosta. Tudo vai bem embrulhado em papel pardo. Ela lhe sorri ao despedir e ele sai em disparada, pra não expor o seu rubor.

Volta pra casa, coloca a encomenda na geladeira e pão na prateleira. Toma seu gole de café e, sem comer nada, vai embora. Já passou da hora!

Bento passa o dia na repartição a pensar na balconista. Lembra a cor de cada dente naquele sorriso. Imagina seus cabelos, escondidos naquele lenço, e sente o cheiro da sua voz.

Todos os dias Bento sai de casa e faz suas compras naquele comércio, mesmo tendo outros mais próximos. Quando pode, vai três vezes no mesmo dia. Quando não pode, vai assim mesmo. Ele sonha com aquelas mãos, imagina o gosto dos seus pés e a textura de seus lábios.

Quanta vez Bento quis se apresentar e convida-la para um café. Não ali, claro. Na Colombo, lugar digno de sua beleza. Mas a timidez sempre o vence. E ele acaba sempre voltando pra casa com o pacote pardo, que só serve para encher sua geladeira.

Bento quer ser feliz, mas o embaraço é seu carrasco. Ele quer se declarar. Mas, quando a timidez afrouxa, a insegurança aperta. Coitado do Bento.

O despertador anuncia o sábado. Bento sai de casa na mesma hora. Ele tem uma flor à mão. Hoje ele não vestiu paletó. Passou um pouco de colônia e um tanto de coragem. Hoje ele vai se declarar. Ele chega à padaria e tudo parece funesto. Ele nota a sua ausência. Logo hoje é o seu dia de folga? Logo hoje ela não veio? “Onde está a moça que sempre me atende?” pergunta Bento ao caixa. “Tereza?” Pela primeira vez ele sabe seu nome. Seu coração dispara. O caixa continua: “O senhor não soube? Ela foi atropelada ontem, ao sair aqui da loja. Chamaram o patrão no hospital. Ele foi lá, deu todo apoio, mas ela não resistiu. O problema foi a demora do atendimento, seu Bento. O senhor sabe como é. O pessoal dá preferência pra quem paga particular. Pobre é assim: acidentou ou adoeceu, morreu”. Bento perde o ar, quase cai. Ele vê seu coração em fatias: 350 gramas bem fininhas. Seu corpo volta pra casa vazio de alma, desolado. Atravessa a avenida sem nem olhar pro lado. “Que bom se eu fosse atropelado, aí eu poderia encontrar Tereza.” Agora ele sabe o seu nome. Mas de que adianta? Ele quer morrer!

Bento chega em casa, abre a geladeira e olha pra todos aqueles pacotes pardos. Ele lembra de cada vez que escutou sua voz, que viu suas mãos seduzirem o barbante e corta-lo no lugar exato. Ele lembra de como ela sempre lhe sorria e ele fugia.

Ele decide se livrar daquelas compras. Mas não sem antes abri-las. Tem inveja daqueles pacotes que foram acariciados por Tereza. Abre o primeiro deles. Encontra um bilhete de Tereza se apresentando e lhe desejando boas vindas ao bairro. Se espanta, mas continua em prantos. Abre outro, mais um bilhete. Desespera-se. Abre todos. Em cada um, um recado. O último que Bento abre, ela lhe entregou ontem pela manhã e o bilhete lhe diz: “Estou lhe escrevendo pela última vez, pois já sofri demais por este amor e você não se manifesta, só me despreza. Se quiser me dar uma chance, me encontre, no fim do expediente, do outro lado a avenida, na cafeteira em frente.”

 

Jaime Solares

criado por jaime.mario    14:11 — Arquivado em: Sem categoria

11/10/07

CONTOS D AZUR

 

As âncoras ja estão sendo inçadas e o veleiro partira em alguns instantes. O destino é desconhecido, mas, como diz o ditado, "o importante é o caminho". E, para isso mesmo, esta embarcação foi construida: para viajar, sem importar por onde. Se alguém quiser embarcar, toda companhia é bem vinda. A troca de experiências, de opiniões, de pontos de vista, tudo o que puder ser compartilhado tem as portas abertas neste cruzador.

Então, desapertem os cintos e as gravatas, tirem os sapatos, vistam suas bermudas e mergulhem. Não olhem mais nada de frente, olhem de cima, de baixo, de lado, de ponta à cabeça, girando, pulando, de qualquer forma não convencional, porque se for pra ver tudo do mesmo jeito, pra que velejar??!!

Zarpei!

criado por jaime.mario    12:57 — Arquivado em: Sem categoria
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