<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	>

<channel>
	<title>Contos D'Azur</title>
	<atom:link href="http://contosdazur.blog.terra.com.br/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://contosdazur.blog.terra.com.br</link>
	<description>Blog criado para hospedar alguns contos e outros tantos que saem de uma cabeça navegante, atualmente ancorada em Nice, na Cöte D'Azur francesa.</description>
	<pubDate>Sun, 05 Jul 2009 19:13:08 +0000</pubDate>
	<generator>http://wordpress.org/?v=2.6</generator>
	<language>en</language>
			<item>
		<title>Ê macho &#8230;</title>
		<link>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2009/07/05/e-macho/</link>
		<comments>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2009/07/05/e-macho/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 05 Jul 2009 19:13:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaime.mario</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://contosdazur.blog.terra.com.br/?p=18</guid>
		<description><![CDATA[Sábado. Dia de inverno quente, abafado, com cheiro de maresia núvens baixas. Cinco e meia da tarde e a noite já caiu há mais de hora. Programação: comes e bebes na casa dos amigos. Mô e Mô chegam na casa de Dengo e Denga. Denga abre a porta e faz Mô e Mô entrarem. Beijinhos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sábado. Dia de inverno quente, abafado, com cheiro de maresia núvens baixas. Cinco e meia da tarde e a noite já caiu há mais de hora. Programação: comes e bebes na casa dos amigos. Mô e Mô chegam na casa de Dengo e Denga. Denga abre a porta e faz Mô e Mô entrarem. Beijinhos, abraçinhos, humm &#8230; vinho tinto, não precisava &#8230; o que vc está fazendo de gostoso? precisa de ajuda na cozinha? não, tá tudo bem encaminhado, me dá os casacos. coloca sua bolsa lá no quarto, senta, obrigado. Após o mis en place, Mô e Mô se sentam, Denga vai pra cozinha providenciar petiscos e, depois que Mô levanta e vai mexer no computador com o Dengo, pra escolherem a música, começam a conversar. Diálogo:</p>
<p>_ Dengo, já pegou a cerveja?</p>
<p>Dengo levanta e vai buscar a cerveja. Mô e Mô continuam conversando com Denga. Mô conversa sobre a massa da torta, Denga emenda conversa com Mô sobre a liquidação de inverno. Dengo, à esta altura já está de volta ao computador, mexendo em música e conversando com Mô sobre futebol. Passados alguns minutos, Denga percebe Dengo tomando uma cerveja geladinha:</p>
<p>_Ê Dengo, vc só serviu cerveja pra vc? E os convidados??</p>
<p>_ Ê Denga, eu servi pra mim, ê.</p>
<p>_Então serve pra todo mundo, né!!!!!! Ê coisa!!! Eu vou é deixar meus filhos todos prontos, viu, pra depois nora não vir reclamar na minha orelha. Ê Dengo, vai ser folgado assim, viu ..</p>
<p>_ Esquenta não Denga, já tem cerveja pra todo mundo &#8230;</p>
<p>_ Ai, Dengo &#8230;</p>
<p>E começa a noitada &#8230;.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2009/07/05/e-macho/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Dia de praia</title>
		<link>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/08/14/dia-de-praia/</link>
		<comments>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/08/14/dia-de-praia/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 14 Aug 2008 15:24:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaime.mario</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/08/14/dia-de-praia/</guid>
		<description><![CDATA[Existem momentos aos quais n&#227;o damos import&#226;ncia. Mas s&#227;o instantes m&#225;gicos, que podem transformar a vida de algu&#233;m. O momento que descreverei &#233; um deles. Pra melhor me fazer entender, preciso contar uma pequena situa&#231;&#227;o. 
Estev&#227;o estava desempregado h&#225; meses. Sua mulher vinha sustentando a casa e o beb&#234; fazendo faxinas, passando roupas e cuidando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Existem momentos aos quais n&atilde;o damos import&acirc;ncia. Mas s&atilde;o instantes m&aacute;gicos, que podem transformar a vida de algu&eacute;m. O momento que descreverei &eacute; um deles. Pra melhor me fazer entender, preciso contar uma pequena situa&ccedil;&atilde;o. </p>
<p>Estev&atilde;o estava desempregado h&aacute; meses. Sua mulher vinha sustentando a casa e o beb&ecirc; fazendo faxinas, passando roupas e cuidando de crian&ccedil;as. Ele, na falta do que fazer, tinha se transformado em &ldquo;dona de casa&rdquo;. Enquanto ela ganhava o dinheiro, ele fazia as tarefas dom&eacute;sticas, tais como lavar a roupa, faxinar a casa, cuidar do beb&ecirc;, preparar a comida, enfim, se ocupava de todos os requisitos de uma vida digna dentro de uma casa. </p>
<p>Naquele s&aacute;bado, Cl&aacute;udia saiu pra mais uma s&eacute;rie de faxinas. Ela estava esgotada, com dores nas pernas e com o sono atrasado. Mesmo assim, levantou-se sem reclamar e ainda com o bom humor que nem as dificuldades conseguiram lhe roubar. Estev&atilde;o, ent&atilde;o, decidiu ajud&aacute;-la. Aline, amiga de Cl&aacute;udia, ficou em casa cuidando do nen&ecirc;. Sa&iacute;ram os dois, embaixo de 36 graus de sol pra varrer, passar pano, lustrar, tirar poeira, limpar, lavar, bater tapete e tudo o mais pra deixar os apartamentos limpos. </p>
<p>Foram mais de 7 horas ininterruptas de faxinas. Os dois sa&iacute;ram da &uacute;ltima com uma sacola cheia de roupas de cama e toalhas sujas. Precisavam levar isso ao dep&oacute;sito de material de limpeza dos donos dos apartamentos (eram todos apartamentos de aluguel). N&atilde;o sabiam o que pesava mais: a sacola ou as pernas, que insistiam em n&atilde;o sair do ch&atilde;o. Cada passo era pesado como o do boi guia. </p>
<p>Na rua, pessoas iam e vinham em biqu&iacute;nis, sungas, com barracas, esteiras, queimadas de sol. Outros estavam sentados em mesas sortidas de garrafas de cerveja, ta&ccedil;as de ros&eacute; e pratinhos de petiscos. Haviam tamb&eacute;m m&aacute;quinas de fotos explodindo aqui e acol&aacute; com modelos sorridentes registrando suas alegrias. Mas ele, Estev&atilde;o e Cl&aacute;udia estavam suados, com sede, fome e com o pouco dinheiro que ganharam naquele dia. Lembraram do filho e de que deveriam comprar o leite da semana. O dinheiro apenas dava pra isso. Sobravam uns m&iacute;seros trocados. </p>
<p>Deixaram as roupas no dep&oacute;sito e foram para a esta&ccedil;&atilde;o do trem. Chegando l&aacute;, sentaram-se e, minutos depois, Cl&aacute;udia disse &ldquo;N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel que a gente n&atilde;o possa nem beber uma &aacute;gua, meu bem. Eu vou usar este troco pra comprar duas garrafinhas de &aacute;gua pra n&oacute;s. Estev&atilde;o nem se manifestou, tamanho o seu cansa&ccedil;o. </p>
<p>Foi a&iacute; que aconteceu o momento. Cl&aacute;udia se levantou e foi ao bar mais pr&oacute;ximo comprar as &aacute;guas. Estev&atilde;o ficou ali, sozinho, com a cabe&ccedil;a encostada na parede, quase adormecido. Aqueles minutos que Cl&aacute;udia gastou indo em busca da libertadora &aacute;gua, Estev&atilde;o gastou pensando em tudo aquilo, naquele dia, em todos os dias, em tudo o que vivera at&eacute; ent&atilde;o, nas coisas boas e m&aacute;s que j&aacute; vivera com Cl&aacute;udia, no filho, no passado, no presente e no futuro. Foi uma reflex&atilde;o r&aacute;pida, mas muito profunda. De repente lhe passou pela cabe&ccedil;a que ela poderia n&atilde;o voltar. Em seguida, lhe passou pela cabe&ccedil;a que ele poderia fugir dali e nunca mais aparecer. Foi um segundo, mas foi muito tempo. Os pensamentos de Estev&atilde;o se aceleraram, ele come&ccedil;ou a se sentir tonto, perdido, quase desesperado. Lembrou de quando souberam da gravidez, das dificuldades do parto, de quando ficou desempregado e o n&iacute;vel de vida caiu, de como Cl&aacute;udia nunca reclamou de nada, de como ele sofria cada dia que ela sa&iacute;a pra trabalhar e ele ficava em casa, lembrou de quando era crian&ccedil;a e de quando era adolescente. Sentiu uma n&aacute;usea, sua cabe&ccedil;a girou, tudo vinha &agrave; sua mente de uma s&oacute; vez. Ele se levantou, deu umas duas voltas em torno de si mesmo e voltou a sentar. </p>
<p>De repente, a voz de Cl&aacute;udia lhe trouxe de volta Ela dizia que comprara apenas uma garrafa de &aacute;gua, pois estava muito caro. Ela bebeu metade e lhe passou o resto. </p>
<p>Estev&atilde;o bebeu um pouco da &aacute;gua, devolveu-lhe a garrafa e lhe cedeu espa&ccedil;o pra sentar ao seu lado. Dois minutos depois, o trem estava l&aacute;. Ele lhe deu a m&atilde;o para embarcar e eles se sentaram. Estev&atilde;o ficou ao lado da janela. Ele olhou pra fora. O c&eacute;u estava lindo. O sol continuava alto, mesmo &agrave;quela hora. Ele olhou pra Cl&aacute;udia e lhe perguntou se ela tinha &acirc;nimo de ir &agrave; praia. Ela disse que sim. Ele beijou sua face e voltou a olhar pro lado de fora. O c&eacute;u ficara mais bonito. </p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="right"><em>Jaime Solares</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/08/14/dia-de-praia/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>LUCIANA TINHA SONO</title>
		<link>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/07/17/luciana-tinha-sono/</link>
		<comments>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/07/17/luciana-tinha-sono/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 17 Jul 2008 11:39:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaime.mario</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/07/17/luciana-tinha-sono/</guid>
		<description><![CDATA[Luciana acordou. O dia estava bonito, com muito sol, mas fresco, uma brisa acariciando as cortinas de seu quarto. Mal abriu os olhos, espregui&#231;ou-se, deu mais uma mexida no corpo e levantou-se de um pulo, toda animada, feliz, como sempre levantava. 
Luciana era assim o dia todo, todos os dias. Ela exalava alegria. Todas as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Luciana acordou. O dia estava bonito, com muito sol, mas fresco, uma brisa acariciando as cortinas de seu quarto. Mal abriu os olhos, espregui&ccedil;ou-se, deu mais uma mexida no corpo e levantou-se de um pulo, toda animada, feliz, como sempre levantava. </p>
<p>Luciana era assim o dia todo, todos os dias. Ela exalava alegria. Todas as pessoas que a conheciam, diziam nunca terem encontrado algu&eacute;m mais feliz e sorridente. Luciana era a express&atilde;o cotidiana do amor. Ela costumava dizer que faltava gente pra ela amar, que lhe sobrava amor. Ela tinha necessidade de cuidar das pessoas, o que acabava lhe transformando em um porto seguro para amigos desenganados. Al&eacute;m disso, n&atilde;o sabia negar nada a ningu&eacute;m. </p>
<p>E foi assim que ela despertou naquele dia, exalando sua alegria e seu amor pela vida, pelas pessoas e por tudo o que a cercava. Levantou-se, lavou-se, comeu e saiu desfilando seus pouco mais de metro e meio pouco recheados &ndash; ela era franzina, o que lhe dava uma ar eternamente infantil. Luciana saiu, passou em frente &agrave; farm&aacute;cia de Seu Prot&oacute;genes, cumprimentou-o e ajudou-o a carregar duas caixas pesadas para dentro da loja. No caminho ainda cruzou com o Dr. Aristides, &uacute;nico m&eacute;dico da cidade. </p>
<p>Este &eacute; outro detalhe a ser lembrado. Luciana morava em uma pequena vila no interior do pa&iacute;s, que tinha apenas um m&eacute;dico, um dentista (que tamb&eacute;m era alfaiate), dois a&ccedil;ougues que se encontram lado a lado (antes era apenas um, mas os irm&atilde;os se desentenderam e dividiram o neg&oacute;cio), uma padaria que s&oacute; funciona pela manh&atilde;, a farm&aacute;cia de Seu Prot&oacute;genes e o bar/caf&eacute;/restaurante do Espanhol, um tipo meio esquisito, sem um passado bem explicado, o que gerava diversas vers&otilde;es sobre sua vida. Uns diziam que era um ex-guerrilheiro do ETA, outros diziam que ele era um antigo comandante das FARCs colombianas, outros diziam que ele era pernambucano e que fazia tipo s&oacute; pra chamar aten&ccedil;&atilde;o pro seu neg&oacute;cio. Enfim, prefeitura, correio, posto de sa&uacute;de, escola, igreja, tudo em n&uacute;mero unit&aacute;rio. A cidade era, no geral pacata e s&oacute; recebia visitantes nos s&aacute;bados, quando havia a feira na pra&ccedil;a, o que atra&iacute;a visitantes das cidades vizinhas, em geral em busca das famosas ling&uuml;i&ccedil;as do Espanhol, que s&oacute; as comercializava em sua barraca, nunca no bar/caf&eacute;/restaurante. </p>
<p>Bom, em mais um dia bonito, na pequena cidade, Luciana saiu, ajudou seu Prot&oacute;genes, cruzou com o Dr. Aristides, trocando com ele um dedinho de prosa, passou em frente ao bar/caf&eacute;/restaurante do Espanhol, cumprimentando algumas pessoas que j&aacute; estavam ali tomando seu caf&eacute; e ainda conversou um pouco com o padre Pedro sobre a quermesse antes de chegar &agrave; ag&ecirc;ncia de correio. Ela desejava enviar uma carta ao Jesse, um americano que passara pela cidade em miss&atilde;o religiosa e com quem ela se correspondia h&aacute; mais de ano. Entrando na ag&ecirc;ncia, ela cruzou com a Dona Mercedes e esta lhe pediu uma ajuda pra fazer os doces da festa de anivers&aacute;rio de se netinho. Luciana, claro, aceitou ajudar e tratou com ela para aquela tarde. </p>
<p>Depois de selar, pagar e colocar a carta na caixa da ag&ecirc;ncia dos correios, Luciana foi pra escola, onde daria a aula de m&uacute;sica para os alunos da segunda s&eacute;rie. Ela tocava violino e ministrava o curso todos os dias, cada dia pra uma classe. </p>
<p>O dia de Luciana passou assim, como todos os dias &ndash; sorrisos, aula, ajuda pra uns e outros, missa das seis e retorno pra casa. &Agrave; noite, ela preparou seu jantar: um pouco de ragu com banana frita, farinha e salada. Fez tamb&eacute;m uma limonada e comeu de sobremesa uma fatia grossa de abacaxi. </p>
<p>Luciana ainda escutou um pouco o r&aacute;dio e depois foi fazer suas preces antes de se deitar. </p>
<p>Luciana deitou-se e dormiu. Dormiu e nunca mais acordou. Alguns dias depois encontraram ao lado de sua cama o vidro de rem&eacute;dios que ela roubara na farm&aacute;cia de Seu Prot&oacute;genes. Eram calmantes fort&iacute;ssimos. O vidro estava vazio. </p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="right"><em>Jaime Solares</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/07/17/luciana-tinha-sono/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>VOLTA PRA CASA</title>
		<link>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/06/25/volta-pra-casa/</link>
		<comments>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/06/25/volta-pra-casa/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 25 Jun 2008 15:48:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaime.mario</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/06/25/volta-pra-casa/</guid>
		<description><![CDATA[O sol criava miragens atrav&#233;s dos vidros do trem. Luiz n&#227;o sabia mais distinguir o que era real. As imagens que ele via atrav&#233;s do trem, por vezes, n&#227;o lhe pareciam fazer parte da paisagem. Mais se assemelhavam a momentos de sua vida &#8211; alguns deles ainda nem vividos. Foi assim, meio perdido, sonolento, com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">O sol criava miragens atrav&eacute;s dos vidros do trem. Luiz n&atilde;o sabia mais distinguir o que era real. As imagens que ele via atrav&eacute;s do trem, por vezes, n&atilde;o lhe pareciam fazer parte da paisagem. Mais se assemelhavam a momentos de sua vida &ndash; alguns deles ainda nem vividos. Foi assim, meio perdido, sonolento, com o rosto encostado na janela, atordoado pelo sol, sem vontade de rir nem de chorar, que ele passou cerca de quarenta minutos dentro de um vag&atilde;o de segunda classe, indo pra casa, depois de mais um dia frustrante atr&aacute;s de trabalho. J&aacute; se iam v&aacute;rios meses sem emprego, sem rumo e, em realidade, sem raz&atilde;o de ser. </p>
<p align="justify">O alto-falante anunciou o nome da esta&ccedil;&atilde;o. Luiz levantou-se e andou calmamente at&eacute; a porta. Tomou alguns esbarr&otilde;es dos passageiros que montavam, mas saiu ileso, sem nem mesmo se importar. Ele olhou em volta e viu a folia de pessoas indo e vindo, apressadas, escutou apitos, &uacute;ltimas chamadas, despedidas, reencontros, escutou tanto que de repente o mundo emudeceu. Ele sentiu-se aliviado. S&oacute; ent&atilde;o deu o primeiro passo em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; escada. Desceu uma centena de degraus e cruzou o corredor azulejado e repleto de an&uacute;ncios at&eacute; chegar &agrave; escada rolante para novamente subir at&eacute; o hall principal da ferrovi&aacute;ria. Deixou pessoas apressadas passarem &agrave; sua frente e ent&atilde;o embarcou. A escada era grande e o tempo que ela gastou o levando at&eacute; o hall lhe pareceu uma eternidade. Finalmente chegou e caminhou por entre a multid&atilde;o de turistas que invadiam a cidade naquela &eacute;poca do ano. Ainda parou e olhou, sem nenhum motivo pra isso, o quadro de partidas. Flertou com as horas e resolveu continuar seu caminho. Ele, diferente da maioria das pessoas ali, n&atilde;o tinha pressa, n&atilde;o tinha pra onde ir, a n&atilde;o ser pra casa, terminar o dia ensolarado dentro da min&uacute;scula cozinha preparando seu jantar solit&aacute;rio. </p>
<p align="justify">Enfim, do lado de fora, viu o &ocirc;nibus se aproximar. Numa fra&ccedil;&atilde;o de segundos, olhou pra dentro da condu&ccedil;&atilde;o, olhou para o ponto, o rel&oacute;gio da esta&ccedil;&atilde;o e, considerando o n&uacute;mero de pessoas que j&aacute; estavam a bordo, a quantidade que montaria, as horas e sua necessidade de correr alguns metros at&eacute; a parada, decidiu esperar o pr&oacute;ximo. Ficou, ent&atilde;o s&oacute;, sentado, aguardando o pr&oacute;ximo carro. </p>
<p align="justify">Sozinho, mais uma vez encostado em um vidro (desta vez eram suas costas), ele, por um momento, invejou todas aquelas pessoas que iam em alguma dire&ccedil;&atilde;o. Os carros que passavam, buzinavam, gesticulavam, tinham que chegar r&aacute;pido, tinham que estar n&atilde;o sabia onde em pouco tempo. E ele? Ele n&atilde;o tinha que estar em lugar nenhum. Sentiu-se triste. </p>
<p align="justify">De repente um carro entra na rua e para quase na sua frente, mas &agrave; uma dist&acirc;ncia razo&aacute;vel. O sem&aacute;foro estava vermelho. Ele percebeu que havia um casal, dentro do carro, na faixa dos cinq&uuml;enta anos. De repente, a mulher come&ccedil;ou a gritar em uma l&iacute;ngua que ele n&atilde;o sabia se era &aacute;rabe ou hebreu. Ela parecia bastante desesperada e arranhava seu pr&oacute;prio rosto enquanto chorava e gritava a l&iacute;ngua confusa e gesticulando violentamente, espancando o painel e a janela. O homem, ao volante, nem se movia, permanecia inerte e alheio, como se aquilo n&atilde;o estivesse acontecendo. O comportamento do homem, um senhor de cabelos curtos e ventre grande, era de tal indiferen&ccedil;a que Luiz chegou a pensar que aquilo realmente n&atilde;o estava acontecendo e que s&oacute; ele estava vendo aquilo. Ele reparou que nos carros em volta, tamb&eacute;m, ningu&eacute;m se importava. Ele era o &uacute;nico que sentia uma certa agonia por aquela mulher. Talvez fosse o sol. Talvez fosse ele pr&oacute;prio. Talvez aquela mulher ali, fosse sua alma. Ou talvez fosse s&oacute; uma briga conjugal. </p>
<p align="justify">O sem&aacute;foro ficou vermelho por horas, mas ao esverdear, os carros partiram em alta velocidade e o ve&iacute;culo onde o desespero viajava dobrou a primeira &agrave; direita. O &ocirc;nibus chegou logo em seguida, na dire&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria. O ponto continuava exclusivo de Luiz e ele subiu em um carro quase vazio. Foi at&eacute; o fundo, onde havia um banco solteiro, pois n&atilde;o se sentia bem sentando ao lado de outra pessoa. Acomodou-se sem encostar o rosto na janela. Dali, continuou a ver os carros e as pessoas indo e vindo, apressados pra chegar. O sol continuava escaldando suas vistas. Ele pensou em abrir o livro que estava em sua mochila, mas, desta vez, o trajeto foi t&atilde;o curto que nem deu tempo. </p>
<p align="justify">Luiz chegou e subiu os quatro lances de escada, porque o elevador estava ocupado com uma mudan&ccedil;a. No segundo lance lembrou que n&atilde;o tinha olhado a caixa de correio. Decidiu deixar pra amanh&atilde;, afinal, provavelmente n&atilde;o haveria nada al&eacute;m de publicidade. Entrou em casa, tirou roupa e abriu o livro que pensou em ler dentro do &ocirc;nibus &ndash; Incidente em Antares, de &Eacute;rico Ver&iacute;ssimo. Recome&ccedil;ou na p&aacute;gina oitenta e quatro, onde tinha parado: o presidente Get&uacute;lio Vargas acabara de suicidar-se. Ele fechou o livro e foi ao banheiro. Comera algo que lhe fizera mal. </p>
<p align="right"><em>Jaime Solares</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/06/25/volta-pra-casa/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Um telegrama</title>
		<link>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/05/26/um-telegrama/</link>
		<comments>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/05/26/um-telegrama/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 26 May 2008 21:34:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaime.mario</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/05/26/um-telegrama/</guid>
		<description><![CDATA[Ricardo abriu com dificuldade o port&#227;o do pr&#233;dio. O s&#237;ndico n&#227;o havia consertado a fechadura e ele come&#231;ou a sentir uma ponta de raiva, mas n&#227;o estava com &#226;nimo para isso e, muito menos, para reclamar. Encostou a porta, sem fecha-la completamente, para que o pr&#243;ximo morador n&#227;o tivesse o mesmo problema - aquele era [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Ricardo abriu com dificuldade o port&atilde;o do pr&eacute;dio. O s&iacute;ndico n&atilde;o havia consertado a fechadura e ele come&ccedil;ou a sentir uma ponta de raiva, mas n&atilde;o estava com &acirc;nimo para isso e, muito menos, para reclamar. Encostou a porta, sem fecha-la completamente, para que o pr&oacute;ximo morador n&atilde;o tivesse o mesmo problema - aquele era um hor&aacute;rio onde muitas pessoas chegavam do trabalho. </p>
<p>Come&ccedil;ou a subir a escada, degrau por degrau, precisando fazer um grande esfor&ccedil;o. Ap&oacute;s o primeiro lance de escadas amaldi&ccedil;oou-se por ter decidido morar no terceiro andar. </p>
<p>Aquele, definitivamente, n&atilde;o era um bom dia. Desde que o r&aacute;dio-rel&oacute;gio expulsara-o da cama ao som de algum pagode de merda, seu humor atormentava-o. Veja l&aacute; se seis e meia da manh&atilde; &eacute; hora de tocar pagode nesta porra de r&aacute;dio!! Assim come&ccedil;ara seu dia. A ducha foi um banho de des&acirc;nimo. Ele tinha comprado xampu e sab&atilde;o na noite anterior, antes de chegar em casa, mas, claro, tinha esquecido tudo na mesa da sala e agora estava ali, embaixo daquele dil&uacute;vio sem sentido, de onde sa&iacute;ra molhando todo o ch&atilde;o em busca dos cosm&eacute;ticos que usaria para lavar a alma de toda essa porcaria de vida e escorregara e batera a m&atilde;o no vaso de ger&acirc;nios que sua m&atilde;e levara para enfeitar sua casa e que agora transformara o ch&atilde;o um campo minado obrigando-o a tentar inutilmente desviar dos cacos. </p>
<p>No topo do terceiro lance de escadas, ao entrar em casa, Ricardo viu os restos de caco, terra e de sangue pelo ch&atilde;o. Suspirou, despiu-se do blus&atilde;o cinza que cobria seu uniforme de condutor e pegou um pano para limpar o ch&atilde;o. Esfregava o sangue que insistia em n&atilde;o sair dali. Quanto mais esfregava, mais o sangue se espalhava e os cacos acabavam lhe cortando mais as m&atilde;os, sem que ele notasse, o que gerava mais e mais sangue espalhado. Ricardo pensava no garoto que se atirara na frente de um trem h&aacute; poucas horas. O evento fechou v&aacute;rias linhas e ele ficou mais de duas horas parado entre as esta&ccedil;&otilde;es de Francisco Morato e Palmeiras-Barra Funda. O garoto tinha apenas 16 anos, contou-lhe o seu chefe. De repente, um caco mais pontudo lhe causou dor e s&oacute; ent&atilde;o ele percebera que suas m&atilde;os estavam repletas de pequenos cortes. Ricardo suspirou mais uma vez, levantou-se, lavou o pano, as m&atilde;os e desta vez pegou um balde e um esfreg&atilde;o. Encheu o balde de &aacute;gua, colocou duas medidas da tampa da garrafa de &aacute;gua sanit&aacute;ria, misturou e, finalmente, limpou o ch&atilde;o com as m&atilde;os ainda vazando. </p>
<p>Ricardo sentou-se no vaso sanit&aacute;rio esperando a coragem para entrar outra vez embaixo do chuveiro e ela chegou. Temperou a &aacute;gua antes de se aventurar embaixo dela &ndash; primeiro abriu a torneira quente e em seguida a fria, transformando o banheiro em sauna. Antes de se entregar definitivamente ao banho, urinou sentado, sem dar a descarga para n&atilde;o atrapalhar o fluxo da &aacute;gua na ducha. S&oacute; ent&atilde;o entrou embaixo do chuveiro, molhou os poucos cabelos que lhe restavam e exp&ocirc;s seu rosto ao jato quente, deixando a &aacute;gua escorrer por sua face antes de atingir seu corpo. Ficou assim por minutos, horas, talvez dias. J&aacute; tinha os dedos enrugados quando resolveu lavar os cabelos e os baixos. Em seguida, enrolou-se na toalha sem enxugar o corpo e foi ao seu quarto estirar-se na cama sem sentir nenhum cansa&ccedil;o. Toda a fatiga tinha descido pelo ralo. Olhou pela janela e viu o c&eacute;u iluminado por uma lua imensa que parecia estar mais pr&oacute;xima do que o avi&atilde;o que piscava vermelho e verde em dire&ccedil;&atilde;o ao Rio de Janeiro. Ele pensou que gostaria de ir para praia no fim de semana. </p>
<p>Sem levantar a cabe&ccedil;a, Ricardo moveu o bra&ccedil;o at&eacute; o criado-mudo, pegou o controle da televis&atilde;o e, sem mesmo olha-lo, ligou a televis&atilde;o no jornal local esperando noticias do Corinthians. Ser&aacute; que trocaram o treinador? Ele estava animado com a possibilidade da chegada daquele t&eacute;cnico argentino. Sem esperar a not&iacute;cia, decidiu sair e levantou-se para vestir aquela camisa que Marisa tinha lhe presenteado no anivers&aacute;rio. Iria surpreende-la na sa&iacute;da do seu trabalho no Shopping Osasco. O banho reanimara-o e seu dia, &agrave;s oito da noite, enfim, parecia ter sentido. Vestiu-se, perfumou-se, penteou-se e at&eacute; lustrou o sapato. Olhou-se no espelho e gostou. Passou pela cozinha pra beber um copo de &aacute;gua gelada antes de partir. Enquanto bebia a &aacute;gua, verificou seu correio, separou propagandas, contas e notou um telegrama urgente no meio de tudo. Colocou-o no bolso e saiu de casa apressado pra n&atilde;o perder o &ocirc;nibus das oito e meia. Desceu as escadas e nem se importou com a fechadura defeituosa do port&atilde;o. Andou a passos largos e chegou na parada do &ocirc;nibus logo antes deste sair. Enfim, sentou-se aliviado, abriu a janela ao seu lado e tirou o telegrama do bolso da camisa nova. Olhou-o de um lado, de outro, n&atilde;o entendeu bem e abriu-o meticulosamente, pra n&atilde;o estragar a mensagem. O remetente era seu irm&atilde;o e a mensagem era o an&uacute;ncio da morte de sua m&atilde;e. Ricardo fechou o telegrama, dobrou-o em quatro, recolocou-o no bolso da camisa e deu o sinal. </p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="right"><em>Jaime Solares</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/05/26/um-telegrama/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>INSÔNIA</title>
		<link>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/04/23/insonia/</link>
		<comments>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/04/23/insonia/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 23 Apr 2008 21:00:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaime.mario</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/04/23/insonia/</guid>
		<description><![CDATA[A chuva metralhava o teto do chambre de bonne que Roberto alugava em Paris. Aquele tiroteio, como sempre, recordava-o o &#250;ltimo dia em que seus olhos conversaram com seu c&#233;rebro e ele enxergou pela &#250;ltima vez, aos dezesseis anos. Foi numa noite como aquela, que ele se deitou e fechou os olhos s&#227;os para, na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">A chuva metralhava o teto do <em>chambre de bonne</em> que Roberto alugava em Paris. Aquele tiroteio, como sempre, recordava-o o &uacute;ltimo dia em que seus olhos conversaram com seu c&eacute;rebro e ele enxergou pela &uacute;ltima vez, aos dezesseis anos. Foi numa noite como aquela, que ele se deitou e fechou os olhos s&atilde;os para, na manh&atilde; seguinte, acordar ainda nas trevas, onde permanece at&eacute; hoje, sem nunca ter sabido a raz&atilde;o de sua senten&ccedil;a. Nem os m&eacute;dicos nunca souberam. </p>
<p>Agora, vinte anos depois, Roberto n&atilde;o conseguia dormir com aquela sinfonia agonizante sobre suas id&eacute;ias. Ele insistiu durante algumas dezenas de minutos, mas o desconforto venceu o cansa&ccedil;o e Roberto decidiu se levantar pra fazer ele n&atilde;o sabe o qu&ecirc;. Ele seguiu o caminho habitual entre a cama e a &uacute;nica janela do pequeno c&ocirc;modo, situado no s&oacute;t&atilde;o de uma resid&ecirc;ncia de 3 andares. O ambiente era simples e frio: as paredes com a pintura descascada, tendo como &uacute;nico adorno um calend&aacute;rio em Braille decorado, ironicamente, com uma foto do <em>Mont Blanc</em>. O piso era de um carpete ralo e desbotado e os &uacute;nicos m&oacute;veis eram um sof&aacute; de duas pessoas, pr&oacute;ximo &agrave; janela; ao centro, uma cadeira velha e uma mesa e, no outro canto, a cama de onde Roberto acabara de se levantar. Ao lado da cama havia uma pequena geladeira que servia, ao mesmo tempo, de criado-mudo. Em cima, alguns livros de Garcia Marquez e Dumas - autores preferidos de Roberto, al&eacute;m de um telefone velho. No parapeito da janela havia um cinzeiro que, de tempos em tempos, Roberto esvaziava ali mesmo, sobre os transeuntes. Toda vez que fazia isso, ele desfrutava de uma estranha sensa&ccedil;&atilde;o de prazer, chegando mesmo a sorrir quando ouvia algu&eacute;m reclamar da chuva de pontas de <em>Gitannes</em>. No &uacute;ltimo canto havia uma pia onde uma torneira chorava incessantemente. Naquela noite, entretanto, a chuva parecia intimida-la. </p>
<p>Chegando &agrave; janela, Roberto pegou o cinzeiro, fez men&ccedil;&atilde;o de esvazia-lo e desistiu: pensou que ningu&eacute;m estaria na rua e, se estivesse, estaria protegido por um guarda-chuvas. Colocou o cinzeiro de volta no parapeito e acendeu um cigarro. Ficou sentado no sof&aacute; pensando em Alejandra, uma mestranda mexicana que conhecera em sua palestra desta tarde. Alejandra era a primeira pessoa, em anos, que n&atilde;o pisou em ovos pra conversar com ele. A espontaneidade com que se dirigiu a ele o surpreendeu e o atraiu. Ele pediu seu telefone e ela lhe respondeu que n&atilde;o adiantava ele anotar, pois n&atilde;o poderia l&ecirc;-lo, ent&atilde;o que ele desse o dele. Ele riu, lhe deu seu n&uacute;mero e foi surpreendido por um beijo agradecido em sua face direita, onde at&eacute; agora se sentia o perfume de melissa herdado da descontra&iacute;da latina. Marcelo, desde ent&atilde;o, era capaz de reconhecer os passos de Alejandra em qualquer ambiente. Apoiado na janela, com o <em>Gitannes</em> inflamado, Roberto buscava em sua mem&oacute;ria a surpresa daquele beijo e a vibra&ccedil;&atilde;o daqueles passos, mas a tempestade insistia em desafiar sua concentra&ccedil;&atilde;o. Marcelo acendeu o segundo companheiro no cad&aacute;ver do primeiro e, desta vez, sentou-se no sof&aacute; acomodando os cotovelos sobre as pernas, inclinado pra frente, como se n&atilde;o quisesse ficar sentado. Chupou o cigarro mais um pouco e depois atirou-o pela janela ainda aceso, sem nenhum prazer desta vez. </p>
<p>Como por encanto, Alejandra se foi de sua mente. Roberto lembrou-se das <em>Putas Tristes </em>de Garcia M&aacute;rquez, que come&ccedil;ara a ler no metr&ocirc;, a caminho de casa. Resolveu termina-lo esta noite, ent&atilde;o buscou-o na escurid&atilde;o, sentou-se na cadeira, apoiou o livro sobre a mesa e come&ccedil;ou a tate&aacute;-lo, iniciando, assim, sua leitura. Alguns minutos passados, seu olfato foi seduzido pelo aroma de am&ecirc;ndoas torradas vindo do c&ocirc;modo vizinho, onde morava Ina &ndash; uma b&uacute;lgara, estudante de psicologia, simp&aacute;tica e atenciosa. Roberto definitivamente abandonou o livro e agu&ccedil;ou sua audi&ccedil;&atilde;o para os sons vindos do outro lado da parede. Escutou rolhas sendo cuspidas, ta&ccedil;as de cristal se beijando e risos ecoando. Provavelmente Pierre, o namorado de Ina, um jovem piloto da Air-France, estava na cidade, trazendo um presente e uma presen&ccedil;a para Ina. Mais tarde, se a chuva permitir, com certeza ele escutar&aacute; Ina fazendo amor em b&uacute;lgaro e pensar&aacute;, como sempre, em <em>Krista</em>, personagem de Chico em <em>Budapeste</em>. Sentiu uma ponta de inveja dos dois amantes e entristeceu-se com isso. Tentou pensar novamente em Alejandra, mas n&atilde;o conseguiu. Voltou, ent&atilde;o, &agrave; leitura. </p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="right"><em>Jaime Solares</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/04/23/insonia/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Au revoir</title>
		<link>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/02/09/au-revoir/</link>
		<comments>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/02/09/au-revoir/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 09 Feb 2008 14:43:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaime.mario</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/02/09/au-revoir/</guid>
		<description><![CDATA[Ela foi embora! Ela nunca foi embora antes, sempre fui eu quem virou as costas e pegou a estrada. Ontem eu, pela primeira vez na minha vida, vi minha m&#227;e indo e eu ficando. Eu fui embora aos vinte e tr&#234;s anos (e l&#225; se vai tempo), tomando o rumo que a vida ofereceu. Voltei [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Ela foi embora! Ela nunca foi embora antes, sempre fui eu quem virou as costas e pegou a estrada. Ontem eu, pela primeira vez na minha vida, vi minha m&atilde;e indo e eu ficando. Eu fui embora aos vinte e tr&ecirc;s anos (e l&aacute; se vai tempo), tomando o rumo que a vida ofereceu. Voltei depois de mais de dez anos e, pra n&atilde;o perder a pr&aacute;tica, fui embora de novo e de novo e de novo. Fui embora e voltei v&aacute;rias vezes. N&atilde;o ontem. Ontem eu fiquei. Ela cruzou o detector de metais, levantou os bra&ccedil;os pra ser revistada, falou algo em portugu&ecirc;s com o seguran&ccedil;a franc&ecirc;s (mas ele entendeu, pois lhe indicou algo com a m&atilde;o), em seguida virou-se pra mim, acenou e se foi. E eu fiquei ali, no sagu&atilde;o do Aeroporto Internacional C&ocirc;te D&acute;Azur, em p&eacute;, desesperado de vontade de correr l&aacute; dentro e dar um &uacute;ltimo abra&ccedil;o, perdido, sem lugar, sem nada nas m&atilde;os, nem sob os p&eacute;s. De algum jeito, eu me virei e dei alguns passos at&eacute; a escada rolante, onde dei de cara com algu&eacute;m carregado de malas, pois quis descer pela escada que subia. Ouvi alguns xingamentos em alguma l&iacute;ngua escandinava, pois, logicamente, a pessoa que subia a escada se embolou toda com as malas, por minha causa. Com algum esfor&ccedil;o cheguei ao ponto de &ocirc;nibus e tentei falar com a Michelle: caixa postal (ela estava trabalhando). Eu precisava ouvir alguma voz reconfortante. Liguei de novo: caixa postal. Liguei, ent&atilde;o pra Amana: caixa postal. Liguei de novo pra Michelle: caixa postal. O &ocirc;nibus chegou (um pequeno &ocirc;nibus que vai de um terminal ao outro). As pessoas subiam cheias e malas e abra&ccedil;os e eu subi sem nada nas m&atilde;os ou sob os p&eacute;s. Liguei de novo pra Amana: caixa postal. Desisti de ligar pra algu&eacute;m. Encostei a cabe&ccedil;a no vidro e fiquei olhando pra fora, buscando n&atilde;o sei o qu&ecirc;. Cheguei ao terminal 1, desci e fui em dire&ccedil;&atilde;o ao ponto do &ocirc;nibus que vai pra casa. Ele estava saindo, eu corri pra pedir ao motorista pra parar e me esperar (coisa rara aqui na Fran&ccedil;a). Ele parou e isso me confortou. Foi essa atitude que me consolou naquele momento. Eu me sentei na cadeira atr&aacute;s do motorista, de frente pra um vidro cheio de pap&eacute;is, pois n&atilde;o queria que ningu&eacute;m visse minha cara de cachorro assutado. O &ocirc;nibus encheu, as pessoas se acotovelavam pra passar e eu cruzei todo o corredor pra descer na porta de casa sem nada sentir. Desci do &ocirc;nibus e liguei de novo pra Michelle. Ela atendeu e eu disse &ldquo;pode falar?&rdquo;. Ela respondeu &ldquo;n&atilde;o&rdquo;. Eu disse ent&atilde;o &ldquo;quando sair do trabalho, me liga&rdquo; Ela disse que sim, nos despedimos e eu subi pra casa. Foi bom. A voz dela me colocou algo sob os p&eacute;s de novo. Subi e liguei a televis&atilde;o. N&atilde;o lembro o que passava.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="right"><em>Jaime Solares</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2008/02/09/au-revoir/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>O SEGREDO DE CLÓVIS</title>
		<link>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2007/11/26/o-segredo-de-clovis/</link>
		<comments>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2007/11/26/o-segredo-de-clovis/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 26 Nov 2007 21:06:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaime.mario</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://contosdazur.blog.terra.com.br/2007/11/26/o-segredo-de-clovis/</guid>
		<description><![CDATA[Como em cada manh&#227;, Cl&#243;vis demorou-se ainda cinco minutos na cama depois que o despertador o avisara da hora. Em seguida, como em cada manh&#227;, ele se levantou, esfregou os olhos remelentos, lavou-se, lambuzou o cabelo de gel, vestiu seu terno e foi trabalhar. 
Era assistente do diretor comercial de uma empresa de exporta&#231;&#227;o de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Como em cada manh&atilde;, Cl&oacute;vis demorou-se ainda cinco minutos na cama depois que o despertador o avisara da hora. Em seguida, como em cada manh&atilde;, ele se levantou, esfregou os olhos remelentos, lavou-se, lambuzou o cabelo de gel, vestiu seu terno e foi trabalhar. </p>
<p>Era assistente do diretor comercial de uma empresa de exporta&ccedil;&atilde;o de caf&eacute;, emprego que conseguira com a indica&ccedil;&atilde;o do tio, logo que chegara &agrave; capital como economista rec&eacute;m-formado em uma faculdade que ele nunca se atreveu revelar. Em seu curriculum constava um diploma da UFMG, duas p&oacute;s-gradua&ccedil;&otilde;es na Funda&ccedil;&atilde;o Get&uacute;lio Vargas e um est&aacute;gio em uma empresa americana, em Boston. Como nunca ningu&eacute;m lhe requereu comprova&ccedil;&atilde;o de nada disso, esta acabou sendo a sua verdade. Cl&oacute;vis vivia assim, em um mundo criado por ele. Considerava que deveria sempre estar entre os ricos para um dia se tornar um deles, transformando, assim, sua vida em uma fic&ccedil;&atilde;o. Estava sempre bem vestido, perfumado e freq&uuml;entava os melhores locais, gastando at&eacute; o que n&atilde;o podia. Por diversas vezes fora obrigado a negociar empr&eacute;stimos em financeiras, bancos, empresas de cart&otilde;es de cr&eacute;ditos, mas, mesmo assim, era visto como um executivo de sucesso, bem quisto nas altas rodas sociais, principalmente depois que noivara com Raquel, filha do presidente da empresa, fato que, ali&aacute;s, fizera crescer suas d&iacute;vidas, pois passara a gastar mais. Claro que Cl&oacute;vis tamb&eacute;m contava com seu carisma, sua boa cultura, sua fala fluente e envolvente e a sorte de ter nascido belo. Ele era um homem alto, esbelto, com um sorriso singular, m&atilde;os finas, pele clara, cabelos negros e olhos azuis, herdados do pai, um franc&ecirc;s que se divertira com sua m&atilde;e durante um carnaval e de quem ele nunca tivera not&iacute;cia. Mas tirava proveito de sua descend&ecirc;ncia europ&eacute;ia. Vivia se gabando de ter o nome do primeiro rei da Fran&ccedil;a, ali&aacute;s, o primeiro rei germ&acirc;nico (originalmente Cl&oacute;vis era chefe do povo germ&acirc;nico chamado Franc, de onde vem o nome da Fran&ccedil;a) a se converter ao cristianismo. O nosso Cl&oacute;vis contava toda a hist&oacute;ria pol&iacute;tica francesa pra quem quisesse ouvir, sempre ressaltando sua origem. </p>
<p>Voltando &agrave;quela manh&atilde; que, como em todas as outras, Cl&oacute;vis sa&iacute;ra de casa pra o trabalho, como era sexta-feira, ele, antes de entrar no arranha-c&eacute;u onde se instalava o escrit&oacute;rio da exportadora, passara, como em cada sexta-feira, pela casa lot&eacute;rica e jogara seus dois reais semanais. 06, 12, 23, 24, 45 e 46. Este era seu jogo desde os 16 anos. Passaram-se mais de 10 anos, mas ele insistira em sua f&eacute; nestes algarismos. </p>
<p>No dia seguinte, como em cada s&aacute;bado, Cl&oacute;vis despertara em sil&ecirc;ncio, esfregara seus olhos remelentos, lavara-se e sa&iacute;ra de casa, com os cabelos soltos, pra comprar o jornal e o p&atilde;o. Voltara, preparara seu desjejum e come&ccedil;ara a folhear o di&aacute;rio para ver os n&uacute;meros sorteados da loteria: 06, 12, 23, 24, 45 e 46. Ele nem precisava conferir. J&aacute; sabia de cabe&ccedil;a seu jogo!!! Seu cora&ccedil;&atilde;o disparara e ele continuara a ler. Um ganhador. O pr&ecirc;mio: a bagatela de algumas dezenas de milh&otilde;es. Era ele! Afinal, ele era milion&aacute;rio! Acabariam suas d&iacute;vidas!!! Ele estava rico!!!!Ele, Cl&oacute;vis, agora tinha nome e patrim&ocirc;nio de rei! Sua nobreza n&atilde;o mais seria apenas aparente, ele seria realmente rico, mais rico que muitas das pessoas com quem ele convivia! Ele nunca se sentira t&atilde;o alegre! Ele griotu, chorou, pulou, correu, n&atilde;o estava se cabendo em si! Parecia explodir. </p>
<p>Na segunda-feira seguinte, como em cada manh&atilde;, ele demorou-se ainda cinco minutos na cama depois que o despertador o avisara da hora. Em seguida, como em cada manh&atilde;, ele se levantou, esfregou os olhos remelentos, lavou-se, lambuzou o cabelo de gel, vestiu seu terno e foi trabalhar. </p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="right"><em>Jaime Solares</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2007/11/26/o-segredo-de-clovis/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>A fia do doutor</title>
		<link>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2007/11/11/a-fia-do-doutor/</link>
		<comments>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2007/11/11/a-fia-do-doutor/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 11 Nov 2007 00:13:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaime.mario</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://contosdazur.blog.terra.com.br/2007/11/11/a-fia-do-doutor/</guid>
		<description><![CDATA[Toinho chegou sorridente em casa, com a boca escancarada mostrando os poucos dentes que ainda lhe restavam. Tava feliz da vida. Foi logo falando alto pra Nho Barnab&#233;. 
__ Ela fal&#244; comigo hoje! __ Ela quem, misifi? __ A filha do doutor. __ Quem? __ Aquela branquela mais bunita que a luz do dia! __ [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Toinho chegou sorridente em casa, com a boca escancarada mostrando os poucos dentes que ainda lhe restavam. Tava feliz da vida. Foi logo falando alto pra Nho Barnab&eacute;. </p>
<p>__ Ela fal&ocirc; comigo hoje! <br />__ Ela quem, misifi? <br />__ A filha do doutor. <br />__ Quem? <br />__ Aquela branquela mais bunita que a luz do dia! <br />__ E da&iacute;? Gente branca tamb&eacute;m fala, uai. <br />__ Mas comigo? Um preto&nbsp;magrelo e pobre. Se eu tivesse as vara dos negro de verdade, ainda ia. Pudia s&ecirc; fama. Mas cum essa birosquinha que eu tenho, nem isso num h&aacute; de s&ecirc;. Ela num fal&ocirc; por interesse. Ela fal&ocirc; porque gosta d&acute;eu. <br />__ E da&iacute;? Um tan&acute;de gente gosta d&acute;oc&ecirc;. <br />__ Mas &eacute; diferente. Ela &eacute; diferente. <br />__ Deixa de s&ecirc; besta, home! <br />__ C&ecirc; num intende. <br />__ T&atilde;o ixprica. <br />__ A primera veiz qu&acute;eu vi ela, ela tava brincando com a irm&atilde;zinha. Elas jogava uma bola grande. Mas eu, logo de cara, vi qu&acute;ela era mui&eacute;, num era minina iguar sua irm&atilde;zinha. Ela corria mostrando as perna. Ela tava gostando de mostrar as perna pros pi&atilde;o. Todo mundo ficou doido, n&eacute;. A gente ta acostumado com essas cabrocha queimada de sol e de terra. Ela &eacute; diferente. Ela tem a pele que parece barriga de leit&atilde;ozinho rec&eacute;m-nascido. E os z&oacute;i!! Parece dois peda&ccedil;o de c&eacute;u. Os cabelo s&atilde;o igual lavoura de trigo. Parece at&eacute; o cabelo do anjo Gabriel. Ela deve s&ecirc; enviada de Deus mesmo. Aquilo &eacute; beleza demais, tudo perfeitin demais da conta. Eu fiquei um tant&atilde;o de tempo s&oacute; oiando pr&acute;ela. Ela num me viu desta veiz. Tem otras veiz que ela me viu, mas num sabe fala nossa l&iacute;ngua, fala umas palavra tudo imbolada. Deve de querer conversar cumigo, mas num d&aacute; conta, coitada. Hoje ela tentou, mas eu s&ocirc; muito do burro, int&atilde;o num tendi nada e continuei minha rota, nem parei pra agradec&ecirc; qui ela fal&ocirc; comigo. Ela &eacute; minina boa, muito boa, eu int&eacute; casava, si ela queria. <br />__ Ih!! T&aacute; gamad&atilde;o, misifi? <br />__ Dessa veiz eu acho que o peixe me pego! Eu num largo di pens&aacute; nela. Eu v&ocirc; pra ro&ccedil;a, vorto da ro&ccedil;a, como, drumo, tudo pesando na danada. At&eacute; sonh&aacute;, eu sonho cum ela. Otro dia sonhei qui a gente tava dan&ccedil;ando na quermece de S&atilde;o Francisco. A dan&ccedil;ava igual dois dan&ccedil;adr mesmo. ELa tava usando um vistido branco,de renda, bunito igual ela. E ela ria pra mim o tempo todo, c&acute;aqueles dente mais branco qui lua cheia. Ela tava filiz de t&aacute; ali cumigo. Eu acho at&eacute; qui v&ocirc; compr&aacute; um vistido pr&acute;ela cum dinheiro da coieta, qui esse ano t&aacute; boa. Eu pe&ccedil;o coroner e ele me adianta um pouco. <br />__ D&ecirc;xa de s&ecirc; besta, fi de Deus!!!! <br />__ Besta nada! Ela que pux&ocirc; conversa. Eu qui num tendi nada. Mas se eu d&eacute; o vistido, ela vai intend&ecirc; qu&acute;eu gostei d&acute;ela t&ecirc; falado cumigo. <br />__ C&ecirc; ta ficando &eacute; doido, misifi. <br />__ Doido nada, ela ta gostando d&acute;eu. <br />__ Doido! <br />__ Num amola. Ela gosta e pronto. <br />__ E o que &eacute; que te falou pr&acute;oc&ecirc; fica desse jeito? <br />__ Num sei, eu num falo a l&iacute;ngua dela, mas eu anotei, pru m&oacute; de depois intend&ecirc;. Aqui &oacute;, ta aqui nu meu borso.<br />__ I oc&ecirc; l&aacute; sabe iscreve, misifi?<br />__ Craro, nho Barnab&eacute;, nho num se alembra qui aqui tinha a iscola da Sinh&aacute; Helena, antes deles vend&ecirc; a fazenda pr&ecirc;ces gringo!<br />__ D&ecirc;xa di ist&oacute;ria. O qu&ecirc; que ela falou, afinal? <br />__ Aqui &oacute;, peguei. Ela disse isso aqui &oacute;: fac iu. </p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="right"><em>Jaime Solares</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2007/11/11/a-fia-do-doutor/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>ANDANDO NAS NUVENS</title>
		<link>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2007/10/31/andando-nas-nuvens/</link>
		<comments>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2007/10/31/andando-nas-nuvens/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 31 Oct 2007 13:46:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jaime.mario</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://contosdazur.blog.terra.com.br/2007/10/31/andando-nas-nuvens/</guid>
		<description><![CDATA[Jorge sa&#237;a de casa todos os dias por volta das sete,&#160;andava um quarteir&#227;o e atravessava uma pra&#231;a at&#233; chegar &#224; parada do &#244;nibus. De um lado da pra&#231;a, havia um col&#233;gio de meninas e, neste hor&#225;rio, chegavam as alunas e algumas professoras, criando uma pequena balb&#250;rdia na pra&#231;a, mas ele nunca prestou aten&#231;&#227;o, at&#233; que, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Jorge sa&iacute;a de casa todos os dias por volta das sete,&nbsp;andava um quarteir&atilde;o e atravessava uma pra&ccedil;a at&eacute; chegar &agrave; parada do &ocirc;nibus. De um lado da pra&ccedil;a, havia um col&eacute;gio de meninas e, neste hor&aacute;rio, chegavam as alunas e algumas professoras, criando uma pequena balb&uacute;rdia na pra&ccedil;a, mas ele nunca prestou aten&ccedil;&atilde;o, at&eacute; que, um dia, ele caminhava pela pra&ccedil;a, distra&iacute;do, como sempre, e, de repente, pum, ele trombou em Mariana. Sua atitude foi natural &ndash; desculpou-se, ajudou-a a recolher seus livros, desculpou-se mais uma vez e continuou seu caminho. Segundos depois de retomar sua dire&ccedil;&atilde;o, Jorge cometeu o grande erro de sua vida: ele olhou pra tr&aacute;s. Ela caminhava. Mas ela caminhava diferente. Ele nunca tinha visto ningu&eacute;m caminhar daquele jeito. Ela parecia n&atilde;o tocar o ch&atilde;o. Era como se ela levitasse. O movimento de suas pernas n&atilde;o era recortado como s&atilde;o os movimentos de todos os mortais, era um movimento cont&iacute;nuo, como se feito sobre rodas. O quadril de Mariana era independente. Ele balan&ccedil;ava sem exageros e n&atilde;o era ela que comandava o balan&ccedil;o. Parecia que&nbsp; o quadril&nbsp;levava Mariana consigo e n&atilde;o o contr&aacute;rio. Ela era uma mulher baixa, com n&atilde;o mais do que um metro e cinq&uuml;enta e cinco de altura. Tinha os cabelos lisos, grandes e, assim como os olhos, negros como a noite. A pele era alva. Ela aparentava uns vinte e tantos anos e tinha m&atilde;os e p&eacute;s pequenos. Seu corpo era correto, sem nada demais ou de menos, mas o seu andar fazia dele um superlativo de sensualidade. Voltando ao Jorge, ele continuou a olh&aacute;-la at&eacute; que ela desaparecesse dentro da escola. Ficou est&aacute;tico, mesmo depois, at&eacute; que alguma buzina o despertou do transe. Perdeu o &ocirc;nibus e chegou atrasado no trabalho, mas, nem mesmo a bronca do patr&atilde;o, conseguiu tirar da sua mente aquele andar. </p>
<p>Jorge ca&iacute;ra apaixonado pelo andar de Mariana naquele exato instante em que virou o pesco&ccedil;o. Ele n&atilde;o se importava se ela era bonita, feia, inteligente, simp&aacute;tica, ele n&atilde;o se importaria nem mesmo que ela fosse de Marte. A paix&atilde;o dele era pelos seus movimentos. Mas, claro, ele tentou descobrir mais sobre ela. Foi a&iacute; que reparou em sua apar&ecirc;ncia, soube seu nome, sua profiss&atilde;o (ela lecionava m&uacute;sica no tal col&eacute;gio), soube que ela era &oacute;rf&atilde; de pai e m&atilde;e, que fora criada por uma tia e que era solteira. Soube que viera do interior pra assumir a referida c&aacute;tedra, que vivia no quarteir&atilde;o de baixo e que j&aacute; era muito querida nas redondezas, mesmo tendo se instalado h&aacute; apenas quinze dias. At&eacute; Elizabeth, sua esposa, conhecia Mariana, com quem encontrara na barraca de peixe do seu Feliciano, na feira de domingo, e a descrevera como carism&aacute;tica, doce e simp&aacute;tica. </p>
<p>Jorge passou a sair mais cedo de casa. Dizia &agrave; esposa que queria chegar antes do Ronaldo no trabalho, pra impressionar o chefe, mas ficava sentado em um banco, esperando Mariana aparecer na esquina e seguir pelo meio da pra&ccedil;a at&eacute; alcan&ccedil;ar a porta do liceu. O problema &eacute; que ele ficava hipnotizado. E isso acontecia sempre que ela passava, n&atilde;o importa onde ou com quem ele estivesse. Se ele estivesse atravessando uma rua e visse Mariana passar, ele ficava ali parado at&eacute; ser acordado pelo urro de um caminh&atilde;o ou pelo xingamento de algum motorista. O andar de Mariana exercia sobre Jorge um poder mais forte que a pr&oacute;pria raz&atilde;o. </p>
<p>Passaram-se meses e a obsess&atilde;o continuava. Jorge agora sonhava, imaginava, visualizava, at&eacute; fazia amor pensando no caminhar de Mariana. Ele gostava de pensar que ela desfilava pra ele. Mesmo no fim de semana, ele descobrira os hor&aacute;rios em que Mariana costumava ir &agrave; feira pra v&ecirc;-la caminhar de sacola na m&atilde;o. Elizabeth estava at&eacute; contente, pois o marido estava se encarregando desta tarefa. E, al&eacute;m disso, estava acompanhando-a a missa de domingo, onde se esfor&ccedil;ava para sempre ficar atr&aacute;s de Mariana na fila da comunh&atilde;o. </p>
<p>Mas os sucessivos atrasos de Jorge esgotaram&nbsp;a paci&ecirc;ncia do patr&atilde;o e ele perdeu o emprego. N&atilde;o contou &agrave; esposa, pois precisava da desculpa do trabalho para sair de casa todos os dias cedo. E, como n&atilde;o tinha mais ocupa&ccedil;&otilde;es, Jorge passou esperar Mariana em todos os trajetos que ela fazia. Ele n&atilde;o conseguia segui-la, pois, ao v&ecirc;-la, ficava im&oacute;vel, meio abobado. Mas ele sabia por onde ela passava. Ent&atilde;o escolhia as ruas mais longas e se escondia atr&aacute;s de uma &aacute;rvore ou sentava em um caf&eacute;, enfim, se posicionava para v&ecirc;-la passar. </p>
<p>Sem emprego, Jorge n&atilde;o conseguiu mais cumprir suas obriga&ccedil;&otilde;es. Elizabeth descobriu que Jorge estava desempregado e, em meio a discuss&otilde;es e aus&ecirc;ncia de explica&ccedil;&otilde;es plaus&iacute;veis, Jorge viu sua mulher ir com a filha pra casa da irm&atilde;, enquanto ele j&aacute; n&atilde;o tinha nem mais um teto. Ele passou a dormir na rua, em algum lugar de onde ele pudesse ver Mariana passar. </p>
<p>E foi vivendo assim, como um mendigo, que Jorge, numa tarde de s&aacute;bado, quando a rua est&aacute; cheia de carros e de pessoas, viu Mariana sair de casa apressada. Como de costume, ficou olhando de p&eacute;, congelado, abestalhado. Desta vez, o molejo de Mariana foi interrompido por um carro, mais apressado do que ela, que quase a jogou pelos ares, mas antes que seu corpo caisse im&oacute;vel, como uma marionete adormecida, Mariana v&ocirc;ou. Jorge voltou a si e reagiu r&aacute;pido: correu, no exato momento em que um outro carro passava, tentando desviar do acidente.&nbsp;Pulou com os dois p&eacute;s no cap&ocirc; deste carro e v&ocirc;ou atr&aacute;s de sua amada, pois queria continuar apreciando&nbsp;aquele andar, nem que fosse nas n&uacute;vens. </p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="right"><em>Jaime Solares</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://contosdazur.blog.terra.com.br/2007/10/31/andando-nas-nuvens/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
	</channel>
</rss>
